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quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Vermelho Imperativo

Começa no escritório
publicitário
a criação do creme embelezante
e do travesseiro de trato croata
(ou ucraniano, não sei...)
Crêem as cores e as letras,
depois, um astro da novela.

O anúncio ganha vida,
se transmite através
do eletromagnetismo
das máquinas
e invade as casas em
bombardeio de cores e
ondas flutuantes de sons
aveludados e hiperativos
O galã beija os ouvidos
em múltipla sedução

Presto, a socialite trata
de trocar seu tradicional
anti-rugas pelo sensacional
rejuvenescedor francês perfumado
com flores do campo

No trânsito, o motorista
trança e costura
esquece os transeuntes
por pouco evita um atropelo

para entrar entorpecido
numa prestadora de conforto
Mastercard quixotesco e estourante
um sorriso lânguido,
e almofada repousada
debaixo do braço.

E até a criança travessa
larga o futebol
para aconchegar-se
às penas do ganso.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Outros extremos da paixão

Texto suporte: http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2006/11/extremos-da-paixo.html

Acabo de viver algo realmente inusitado, lembrou-me Caio Fernando Abreu, como o título deixa bem claro, Caetano e sua música “Odeio”. Enfim, o acontecido: minha irmã brigou com minha mãe no carro, a caminho de não sei onde. Desceu do carro, passou entre os carros no trânsito e sumiu por aí. Minha mãe chega em casa, chorando, nem desce do carro, e tenta ligar para o celular de Carol pelo seu telefone. Ocupado, uma, duas, três, quatro mil vezes. Porque, contemporânea, minha irmã liga aqui para meu telefone e diz seu paradeiro, em pranto.
Depois de uns vinte minutos, já são chegadas as duas. Caras enfezadas, testas sisudas. Mamãe abre a porta, grita que a confusão também é culpa sua, que vive trancado nesse quarto, que sua irmã disse que você não a conta nada, que não é amigo de sua mãe, eu já pedi a Deus pra me levar dessa vida! E chora. E eu, pasmo. Corre pro banheiro e me deixa ali, parado, sem reação. Logo me levanto para ver o que é que está havendo, de fato. Encontro mais choro, tosses, soluços. Fico quieto, ainda não entendi qual minha participação nessa briga toda – que ainda continua lá fora, uma mesma discussão sobre desemprego, conformismo, vícios, palavrões, família e outras coisas que já tive há séculos e que nunca foi resolvida, e deixei de lado, por desesperança.
Ouvi aquele sermão como um quase odeio você. Caê diz que apregoar ódio ao outro é a forma mais sincera de dizer eu te amo. Esperei dois minutos e confirmei o dito de Caetano. Vi, de canto de olho, minha mãe entrar no quarto, me abraçar por trás, ainda com fios oleosos escorrendo dos olhos e me comprimir fortemente a seu corpo, como poucas vezes a senti. Ficou dizendo eu te amo, Nenetico, e eu, ainda sobressaltado, só consegui abraçar com o pouco de força que me resta, diante de todas estas confusões domiciliares e dizer um eu também. Ela enxugou as lágrimas e deixou o quarto, porta entreaberta. Não sei se por ironia, mas tocava Vida Imbecil, do Pato Fu, no momento.
Mas que coisa é essa entre as mães de sentirem pelos filhos qualquer coisa irresponsavelmente multiplicada por algum químico maluco numa indústria de fabricação de rebentos? Dirão as mães, com ar de obviedade: eles nasceram de mim. Mas, e os adotados? Eles cresceram de mim, responderão, englobando estes e aqueles. Dizem, que só sendo mãe pra saber, mas acho que não. “Vi cê me fazer crescer também, pr’além de mim”, mais Caetano. O amar out, babaca é esse mesmo sentimento materno de eu te odeio e te odeio (amo) em sintervalo de segundos. Eu leio Caio, e acho lindo. Werther, não.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Brinquedo de Papel Crepom

Queria tomar três caixas de analgésicos. Queria atravessar as ruas rastejando, para que os carros passassem por cima de seu corpo pálido e macilento. Não se importava mais com sua integridade física. Mas estava ali, num banco de praça, com as mãos nas têmporas, pensando em tudo que lhe havia acontecido desde o primeiro dia do ano. Pensou que se rastejasse no cruzamento mais movimentado da cidade seria, no mínimo, um desafiante aos habitantes de sua cidade, que atravessavam todas as ruas, até mesmo as estreitas, onde os meninos jogam bola durante toda a tarde, correndo, apavoradas. Fogem dos veículos, as neuróticas. Mas não era em desobediência civil que sua cabeça estava focada no momento. Na verdade, sim. Suicídio é uma das maiores ações de desobediência. Mas não dava a mínima para isso agora. Não nesse momento.
Tentava lembrar das promessas que lhe foram feitas no dia em que chorou pela primeira vez entre os familiares à beira de uma piscina, num dia de férias. Sabia que não tinham sido cumpridas, mas queria fazer um exercício de auto-comiseração. Sentir-se traído pelos familiares, coitado. Mas, o que se pode esperar das pessoas? Aos dezoito, elas só pensam em sexo, carros do ano e rir de coisas bobas. Aos trinta e oito, nos filhos, nas dívidas e, sexo, só de forma esporádica, em descarga mensal de prazer acumulado. Não são confiáveis. Mas ele lhes deu um voto de confiança. Em vão. A mesma briga, por qualquer motivo pequeno, como, por exemplo, criticar o comportamento sedentário de sua mãe, explodiu em mais uma reação de choro, gritos e direções apressadas no trânsito lento daquela rua de duas faixas. Mal chegou em casa, já estava de saída. Pisoteou furiosamente triste a calçada de pedras portuguesas azuis e brancas que o levavam até a avenida. Não olhou para os lados nenhuma vez. Um conhecido chato – eles sempre aparecem nas piores horas - lhe acenou e gritou. Não respondeu. Cabeça baixa, pensamentos confusos. Tinha vontade de chorar, mas seu sistema nervoso continha-no. Sempre o conteve, por mais que ele quisesse chorar e gritar de pavor. Só lhe permitia extravasar tudo em raiva. A mais pura violência disfarçando a tristeza extrema. Era tão contido que, quando deparou com o tráfego da avenida apressou o passo, assim que pôde, para não ser atropelado. Ali percebeu que, de fato, não queria sumir. Mas queria alguma violência. Mais uma vez, conteve-se.
Sentou-se no banco e ficou numa posição de lótus fajuta por um tempo. Os minutos pareciam levar mais tempo para passar, como acontece sempre que nos apegamos a algo emocionalmente forte. O fluxo de pessoas era razoável naquele corredor entre um monumento que tentava ser pós-moderno e seu banco de madeira. Algumas o olhavam de soslaio, outras de maneira dissimulada. Começara a enumerar os motivos que o faziam deixar sua vida seguir o curso quando resolveu interromper a prática – que julgou infantil e poser - para pegar o Caio Fernando Abreu que levava a tiracolo. Procurou o texto que tinha o nome mais triste entre os agrupados no índice. A Morte dos Girassóis lhe soou triste, entre os quais ainda não havia lido, e ainda lhe trazia familiaridade. Leu, e viu que era um texto sobre não interromper a vida de súbito. Fôra publicado no dia de seu aniversário, em um ano qualquer do passado recente. Daquelas coincidências terrivelmente estarrecedoras. Sentiu frio, mesmo que o termômetro do hospital teimasse a indicar vinte e sete graus de um dia sem vento às cinco da tarde. Estava com as mãos em volta de seus ombros, seu corpo tremia, seus dentes tremelicavam. E o livro estava jogado, de lado. Não conseguia encarar mais aquele homem escutando algo no quarto ao lado através de um copo de vidro. Não podia ver o livro com a mesma naturalidade de antes. Também descobriu em suas leituras uma série de hábitos de escrita que o Caio F. tinha em comum consigo.
A coincidência o perseguia. E, definitivamente, o assustava. Mais do que deveria, talvez. Já tinha sido surpreendido uma quantidade de vezes incalculável por respostas diretas à questionamentos extremamente pessoais. E estas respostas encontravam-se nos lugares mais... surpreendentes, impróprios, nefastos. Nos rostos dos negros da Boca do Rio. No escrito de um caderno velho no ônibus às seis da tarde. Quantas já tinha encontrado e descartado, por pura falta de memória? Agora se odiava por isso. Mais uma vez. E sabia que iria se odiar de novo, mais uns dias depois, por esquecer qualquer outra coisa. Isso era certo. Três coisas lhe faziam sentido agora:

1 – Dwayne estava certo.
2 – “Uma família é como uma arma carregada / Você aponta-a no sentido errado, alguém vai ser morto”.
3 – Precisava de uma casa submarina. Agora.

No fim de tudo, percebeu que estava perdendo espaço para a vida, para a realidade. Estava sufocado. Tudo lhe era indisponível. As linhas: ocupadas, as pessoas: ocupadas, o cheque: sem fundos. As obrigações lhe tiravam o tempo. Tiravam mais o tempo dos outros que o seu. Mas o tempo deles era seu tempo. O vermelho do seu coração de crepom se esvai no gelo do pólo sul.