em parceria com a czarina romena.
Traga a carta de vinhos
minha companhia alonga-se na demora
meu relógio e eu, sozinho
os minutos passam e as flores murcham
aquilo corroendo as paredes, eu sei, é o tempo
das paredes ulcerosas brota a impaciência
nada chega.
Traga a carta de vinhos.
Chilenos, argentinos e brasileiros. Só. É um restaurante latino-americano?
Que seja. traga um de rótulo bonito. Um que não tenha rolha.
Não há rótulos bonitos em latinoamérica. Só índios - disse-me o insolente maître.
Então me traga uma puta pra me fazer companhia.
Aqui não. Dois prédios à direita, sim?
Sim, certo. Então uma água, um camembert, uma taça de dignidade?
Servimos apenas estes vinhos. Espera de nós dignidade?
Silvinha chega enfim ao restaurante. Me encontra afundado entre o mâitre e as migalhinhas de pão. Estava conhecendo-a agora. E já não tinha uma boa impressão dela. Além de atrasada, estava feia. Parecia que havia saído de um salão de beleza enquanto ainda penteavam seu cabelo.
Ela amarrou a bolsa na cadeira e se sentou com um ruido abafado. Oi! Desculpa o atraso viu? é que rolaram uns imprevistos e… enfim! cheguei!
Olhei-a com escárnio. Como podia se atrasar tanto pro nosso primeiro encontro? Resolvi ser cruel.
- Hoje a conta é sua, baby.
Ela passou a mão no cabelo, e não respondeu se sim ou se não. Além de tudo devia ser avarenta. O vinho chegou. Era chileno. Tinha nome de santo.
Vamos conversar, pensei. Olhei para o vinho e fiz uma careta. Parecia péssimo. Era suave, ainda por cima.
- Quais os imprevistos que enfrentou?
- Ahn, bem. A… a minha mãe ligou pedindo pra buscar ela, porque… porque ela tinha sido assaltada.
Em outras palavras, ela passou tempo demais no banho e usou o secador pra construir aquele Frankenstein que ela chamava de penteado.
- Foi você quem fez esse penteado?
- Não… estive no salão antes de tudo isso. Gostou? - disse enquanto sorria e alisava a cabeleira loira
- Horrível.
O sorriso esvaiu rapidamente de sua face. O silêncio na mesa contrastava com o tilintar de garfos e derramar de líqüido nos copos das outras mesas. Bebia o vinho calmamente. Não estava tão ruim assim.
Eu ia estourar seu cartão de crédito, ela sabia disso.
Ela começou a parecer indignada, mas não sabia bem o que fazer. Torcia e destorcia o guardanapo no colo, fez que ia falar, não falou. Veio o mâitre: Já sabem o que vão pedir?
- Já sabemos, querida?
- Não, por que você não escolhe? - quis ser gentil. Sua gentileza iria lhe custar uns 500 reais.
- Primeiro, petit gateaux. Um pra cada. Depois, lagosta e paella. De acordo, amor?
O maître olhou meio assustado. Talvez por pedir uma sobremesa de entrada. Mas queria doce e não queria rodeios.
- Sim, Joseval… - assentiu resignada.
O maître saiu feliz.
Ela começou a me olhar com ódio. Era divertido ver a pálpebrazinha de baixo tremelicar. Quando o garçom trouxe os dois bolinhos de chocolate como entrada, ela já estava à beira das lágrimas.
Ela comeu. Pareceu um pouco melhor. Chocolate e mulheres, vá entender.
- Está gostando? Eu estou achando ótimo. Ah, roubaram o que de sua mãe? Ela está bem?
- Poderia ser melhor. Roubaram pouca coisa, só a bolsa. O problema são os documentos mesmo. A propósito, acho que não tenho dinheiro para pagar a conta toda. - tentou revidar.
- Nem eu. Também fui assaltado.
Choque.
- vamos cancelar os pedidos.
- Está louca? Estou morto de fome! Você tem idéia do quanto se atrasou?
- Eu te pago um cachorro quente lá fora! Não. Vou. Lavar. Pratos. Não vou. Ponto.
Ela levantou, foi atrás do mâitre. Pediu desculpas e a conta.
- Desculpe, senhora. Mas é norma da casa não cancelar pedidos de pratos que já foram preparados.
- MAS EU NÃO TENHO DINHEIRO! - gritou, chamando a atenção de todo o restaurante. Ainda por cima era indiscreta. Resolvi deixar o restaurante de fininho.
Passei pela porta giratória e pedi um táxi. Entrei e mandei o motorista acelerar.
Ainda deu pra ver Silvinha correndo atrás atabalhoada, de salto alto, uivando um Filho da Puta!!!!!! assim, com diversas exclamações mesmo. É. Descabelada, avarenta e mal-educada. Desculpe Silvinha, mas eu e você… não era pra ser.
quarta-feira, 24 de janeiro de 2007
terça-feira, 2 de janeiro de 2007
Antediluviano
Solidão contemplativa do pato
Sob o céu pardacento da manhã
Solidão lúgubre das cruzes
Ao longo da rodovia que rasga
Solidão resignada do lavrador,
que sulca o solo raso com a enxada
Solidão viçosa das florzinhas amarelas
Entre os galhos retorcidos e espinhosos
Solidão esmaecida dos prédios abandonados
Esmagados pelas secas intempéries
E ainda para lá,
É tudo Desertão
Sob o céu pardacento da manhã
Solidão lúgubre das cruzes
Ao longo da rodovia que rasga
Solidão resignada do lavrador,
que sulca o solo raso com a enxada
Solidão viçosa das florzinhas amarelas
Entre os galhos retorcidos e espinhosos
Solidão esmaecida dos prédios abandonados
Esmagados pelas secas intempéries
E ainda para lá,
É tudo Desertão
terça-feira, 5 de dezembro de 2006
O Patriarca Resignado
Curioso como os feixes de luz solar tornam as coisas bonitas a depender do seu grau de inclinação. A favelização e os feios prédios comerciais em tom pastel passam despercebidos às quatro da tarde, por exemplo. Neste horário o que se sobressai são o céu tomado por um azul em início de amarelecimento e as folhas das árvores em tom verde bandeira. Mas a cidade não pode parar e poucos percebem este fato. Dizem até que a cidade, como um todo, é pouco arborizada. São os olhos de pequenos comerciantes que de verde conhecem apenas as cédulas de um real, e que enxergam mais o cinza das moedas antigas - aquelas emitidas no longínquo ano de 1994. Afinal, sua memória é curtíssima, e mal conseguem lembrar-se das eleições anteriores -. A ordem é jogar o que é velho fora.
“Interna esse velho no asilo, Maria!”. Augusto ouvia isso da boca do genro todos os dias e já estava ficando acostumado a contragosto. Pedro havia se casado com sua filha e desde então morara na casa de Seu Augusto. Hoje, a casa continua registrada no fórum como de propriedade do velho senhor, mas a posse é, de fato, do pequeno-burguês.
Seu Augusto trabalhara muitos anos de sua vida como pedreiro, e a casa onde moram foi construída por ele há muitos anos. Sempre foi um homem econômico, e juntando parte de seu salário mensal, pôde construir seu lar e desenvolver uma pequena loja de materiais de construção. O tempo passou, a loja cresceu, mas Seu Augusto - que nunca fôra bruto -, não embruteceu em meio aos sacos de cimento e às latas de tinta. Continuara a dar valor a um bom baba no fim de semana, ao canto dos já escassos pássaros canoros da manhã, até mesmo à vegetação retorcida e feia da caatinga de onde saíra ainda pequeno. Casou-se com uma mulher que não amava, teve com ela cinco filhos e todo o desgosto que poderia agüentar. Ali sim é que embruteceu e amargurou-se. Mas não durou muito, e Augusto pôde voltar a apreciar o doce das coisas. Margarida morreu no parto de Maria, que acabaria se tornando o segundo desgosto de Augusto.
Respeitou o luto pela morte de sua esposa. “Homem de honra não casa com duas mulheres”, dizia ele. E foi assim. Criou seus filhos através de árduo trabalho e severa abnegação. Naquela época, Feira de Santana ainda era uma cidade pequena e as crianças brincavam de gude nas ruas do centro da cidade, que possuía um forte odor de couro, fruto da grande feira popular do centro, e dos currais do antigo Campo do Gado. Moravam na Brasília, e de lá seus filhos saíam para estudar no Gastão Guimarães, todos os dias.
Maria era a mais nova, e sentia-se culpada pela morte da mãe. Permitia-se a pensar que possuía algo de maligno no corpo, e que isso havia matado sua mãe de alguma forma. Carregou esta culpa em si até o dia em que conheceu Pedro, um rapazito cheio de lábia, que só pensava em levar a pobre moça para a cama mais próxima. Usou-se de uma conversa fiada para levá-la a pensar que não apresentava nenhum mal mortal em seu corpo, apenas o poder de apertar seu coração. A menina, ruborizada, ria, enquanto tomava sorvete com o malandro sem navalha.
Pode-se dizer que ali havia começado o segundo martírio de Augusto. Dissimulado, Pedro conseguiu a confiança do pai de sua namorada, e conseguiu que fosse tratado como um membro antigo da família. Sentava-se à mesa e tinha tanta voz na casa quanto o patriarca. Era de se esperar que desenvolvesse tino comercial, e foi isto mesmo que aconteceu. Sem precisar passar por qualquer curso universitário ou qualquer cargo rasteiro, ele arranjou uma posição de destaque na loja de seu sogro. Assumiu o balcão, depois, com o crescimento da loja, virou gerente. Cuidou-se para não entrar em atritos com Augusto, em âmbito familiar e profissional. Sempre teve ambição de controlar aquele pequenino império comercial, que atendia a um bairro em crescimento constante, e conseguiu, quando Augusto resolveu “abrir espaço para os mais jovens”, como gostava de dizer. O aposentado mal-sabia que além da aposentadoria, assinara também a “carta de humilhação”. Pedro esperou algum tempo para consolidar-se como verdadeiro dono da loja e livrar-se de toda a influência que seu velho sogro exercia perante os funcionários. Quando se sentiu em sua plenitude, passou a incutir Maria da inutilidade de seu pai. Usava-se do argumento de que estava caducando, falando até com mendigos – o que de fato fazia -. “Como é possível ficar falando com esses vagabundos como se fossem pessoas normais? Eles tem de aprender a trabalhar, o trabalho dignifica o homem!”.
Passaram a brigar e a primeira cena que deles foi descrita no texto, passou a repetir-se constantemente. Numa discussão durante o almoço, deu-se a gota d’água. Pedro reclamava de sentir um calor insuportável na cidade, e atribuía a causa disto à falta de árvores na cidade. “Veja bem, os bairros daqui, principalmente os centrais, possuem bastante árvores. Nem todas sombreiam muito, mas elas existem. Faltam plantas na caatinga, isso sim”. Pedro, percebendo que iria perder a discussão se ela realmente começasse, agiu de maneira arrogante, fazendo um drama barato, quase rocambolesco, e acabou por dizer, com lágrimas nos olhos, que deveriam internar mesmo o sogro. Abraçaram-se ele e Maria, enquanto um resignado Augusto dirigia-se para seu quarto. Subiu na cama do pequeno quarto, apoiou-se no guarda-roupas, e pegou sua mala. Arrumou rapidamente as poucas roupas de qualquer jeito dentro da mala, pensando que não deveria ser de todo mal ir para um asilo, mas que fosse o Lar do Irmão Velho, não poderia ser outro. Ouvira falar bem do instituto quando fôra consultar-se no Hospital Dom Pedro II. Um leve problema de coluna, lhe disseram. Mas, não, pensou numa idéia melhor.
Então, dirigiu-se para o banheiro, a fim de barbear-se. Fez a barba e deixou seu bigode vasto e acinzentado, cultivado por anos, para parecer imponente. Depois de lavar o rosto, apareceu na sala, vestido com seu terno de domingo e com sua antiga mala suspensa pela mão direita. “Irei fazer uma viagem para minha terra natal. Juntei parte de minha aposentadoria e devo ficar um mês por lá com meus parentes. Até mais”. E saiu, depois de um abraço rápido na filha e sem falar com o genro. Mentira para eles, afinal, não lhes devia nada senão o desprezo. Na verdade, o que iria fazer era simples. Iria conviver com seus semelhantes, os sem-teto. Então, partiu para o local onde poderia encontrá-los: a praça da Kalilândia.
Andou um pouco, e logo chegou. Assim que avistou os mendigos, acenou-lhes, muitos ali já haviam conversado com ele, e o conheciam de longa data. Para a surpresa deles, Augusto viera para ficar, e mais: dividiria parte das roupas e do dinheiro com os que estavam ali. Logo ganhou a confiança dos que não conhecia e também seu pedaço de papelão para dormir.
Só não contavam com a denúncia de uma moradora senil, que mal sabia se rezava o terço, ou olhava para a rua. Anoitecia no momento da partilha do dinheiro, e a velhota, que estava com seu terço, rezando-o na hora certa, deixou-se olhar para o coreto, achando que era um assalto. Então, como boa cidadã, ligou para a polícia. Então o chefe da delegacia conseguiu a oportunidade que queria. Era um linha-dura, que pretendia acabar com o máximo de sujeira social que via por meio da violência. Assim, preparou uma emboscada no meio da noite, capturando silenciosamente todos os mendigos que estavam no coreto. Foram postos no camburão e levados para longe, para a sombria e decadente Colônia Lopes Rodrigues. Amarrados e amordaçados, apanharam por horas e tiveram seus pertences roubados. Foram deixados nus e levaram choques elétricos. Que não seria aquele lugar senão um matadouro ditatorial? Para contar a história, sobraram apenas os policiais, que, claro, nunca haviam visto qualquer dos mendigos mortos.
“Interna esse velho no asilo, Maria!”. Augusto ouvia isso da boca do genro todos os dias e já estava ficando acostumado a contragosto. Pedro havia se casado com sua filha e desde então morara na casa de Seu Augusto. Hoje, a casa continua registrada no fórum como de propriedade do velho senhor, mas a posse é, de fato, do pequeno-burguês.
Seu Augusto trabalhara muitos anos de sua vida como pedreiro, e a casa onde moram foi construída por ele há muitos anos. Sempre foi um homem econômico, e juntando parte de seu salário mensal, pôde construir seu lar e desenvolver uma pequena loja de materiais de construção. O tempo passou, a loja cresceu, mas Seu Augusto - que nunca fôra bruto -, não embruteceu em meio aos sacos de cimento e às latas de tinta. Continuara a dar valor a um bom baba no fim de semana, ao canto dos já escassos pássaros canoros da manhã, até mesmo à vegetação retorcida e feia da caatinga de onde saíra ainda pequeno. Casou-se com uma mulher que não amava, teve com ela cinco filhos e todo o desgosto que poderia agüentar. Ali sim é que embruteceu e amargurou-se. Mas não durou muito, e Augusto pôde voltar a apreciar o doce das coisas. Margarida morreu no parto de Maria, que acabaria se tornando o segundo desgosto de Augusto.
Respeitou o luto pela morte de sua esposa. “Homem de honra não casa com duas mulheres”, dizia ele. E foi assim. Criou seus filhos através de árduo trabalho e severa abnegação. Naquela época, Feira de Santana ainda era uma cidade pequena e as crianças brincavam de gude nas ruas do centro da cidade, que possuía um forte odor de couro, fruto da grande feira popular do centro, e dos currais do antigo Campo do Gado. Moravam na Brasília, e de lá seus filhos saíam para estudar no Gastão Guimarães, todos os dias.
Maria era a mais nova, e sentia-se culpada pela morte da mãe. Permitia-se a pensar que possuía algo de maligno no corpo, e que isso havia matado sua mãe de alguma forma. Carregou esta culpa em si até o dia em que conheceu Pedro, um rapazito cheio de lábia, que só pensava em levar a pobre moça para a cama mais próxima. Usou-se de uma conversa fiada para levá-la a pensar que não apresentava nenhum mal mortal em seu corpo, apenas o poder de apertar seu coração. A menina, ruborizada, ria, enquanto tomava sorvete com o malandro sem navalha.
Pode-se dizer que ali havia começado o segundo martírio de Augusto. Dissimulado, Pedro conseguiu a confiança do pai de sua namorada, e conseguiu que fosse tratado como um membro antigo da família. Sentava-se à mesa e tinha tanta voz na casa quanto o patriarca. Era de se esperar que desenvolvesse tino comercial, e foi isto mesmo que aconteceu. Sem precisar passar por qualquer curso universitário ou qualquer cargo rasteiro, ele arranjou uma posição de destaque na loja de seu sogro. Assumiu o balcão, depois, com o crescimento da loja, virou gerente. Cuidou-se para não entrar em atritos com Augusto, em âmbito familiar e profissional. Sempre teve ambição de controlar aquele pequenino império comercial, que atendia a um bairro em crescimento constante, e conseguiu, quando Augusto resolveu “abrir espaço para os mais jovens”, como gostava de dizer. O aposentado mal-sabia que além da aposentadoria, assinara também a “carta de humilhação”. Pedro esperou algum tempo para consolidar-se como verdadeiro dono da loja e livrar-se de toda a influência que seu velho sogro exercia perante os funcionários. Quando se sentiu em sua plenitude, passou a incutir Maria da inutilidade de seu pai. Usava-se do argumento de que estava caducando, falando até com mendigos – o que de fato fazia -. “Como é possível ficar falando com esses vagabundos como se fossem pessoas normais? Eles tem de aprender a trabalhar, o trabalho dignifica o homem!”.
Passaram a brigar e a primeira cena que deles foi descrita no texto, passou a repetir-se constantemente. Numa discussão durante o almoço, deu-se a gota d’água. Pedro reclamava de sentir um calor insuportável na cidade, e atribuía a causa disto à falta de árvores na cidade. “Veja bem, os bairros daqui, principalmente os centrais, possuem bastante árvores. Nem todas sombreiam muito, mas elas existem. Faltam plantas na caatinga, isso sim”. Pedro, percebendo que iria perder a discussão se ela realmente começasse, agiu de maneira arrogante, fazendo um drama barato, quase rocambolesco, e acabou por dizer, com lágrimas nos olhos, que deveriam internar mesmo o sogro. Abraçaram-se ele e Maria, enquanto um resignado Augusto dirigia-se para seu quarto. Subiu na cama do pequeno quarto, apoiou-se no guarda-roupas, e pegou sua mala. Arrumou rapidamente as poucas roupas de qualquer jeito dentro da mala, pensando que não deveria ser de todo mal ir para um asilo, mas que fosse o Lar do Irmão Velho, não poderia ser outro. Ouvira falar bem do instituto quando fôra consultar-se no Hospital Dom Pedro II. Um leve problema de coluna, lhe disseram. Mas, não, pensou numa idéia melhor.
Então, dirigiu-se para o banheiro, a fim de barbear-se. Fez a barba e deixou seu bigode vasto e acinzentado, cultivado por anos, para parecer imponente. Depois de lavar o rosto, apareceu na sala, vestido com seu terno de domingo e com sua antiga mala suspensa pela mão direita. “Irei fazer uma viagem para minha terra natal. Juntei parte de minha aposentadoria e devo ficar um mês por lá com meus parentes. Até mais”. E saiu, depois de um abraço rápido na filha e sem falar com o genro. Mentira para eles, afinal, não lhes devia nada senão o desprezo. Na verdade, o que iria fazer era simples. Iria conviver com seus semelhantes, os sem-teto. Então, partiu para o local onde poderia encontrá-los: a praça da Kalilândia.
Andou um pouco, e logo chegou. Assim que avistou os mendigos, acenou-lhes, muitos ali já haviam conversado com ele, e o conheciam de longa data. Para a surpresa deles, Augusto viera para ficar, e mais: dividiria parte das roupas e do dinheiro com os que estavam ali. Logo ganhou a confiança dos que não conhecia e também seu pedaço de papelão para dormir.
Só não contavam com a denúncia de uma moradora senil, que mal sabia se rezava o terço, ou olhava para a rua. Anoitecia no momento da partilha do dinheiro, e a velhota, que estava com seu terço, rezando-o na hora certa, deixou-se olhar para o coreto, achando que era um assalto. Então, como boa cidadã, ligou para a polícia. Então o chefe da delegacia conseguiu a oportunidade que queria. Era um linha-dura, que pretendia acabar com o máximo de sujeira social que via por meio da violência. Assim, preparou uma emboscada no meio da noite, capturando silenciosamente todos os mendigos que estavam no coreto. Foram postos no camburão e levados para longe, para a sombria e decadente Colônia Lopes Rodrigues. Amarrados e amordaçados, apanharam por horas e tiveram seus pertences roubados. Foram deixados nus e levaram choques elétricos. Que não seria aquele lugar senão um matadouro ditatorial? Para contar a história, sobraram apenas os policiais, que, claro, nunca haviam visto qualquer dos mendigos mortos.
sábado, 25 de novembro de 2006
Fugidio
Tua mente é arranjo tropicalista
Que o maestro Duprat não pensou em fazer.
Pensamentos em círculos imperfeitos
Devoram a você e ao pobre giramundo.
Um lapso de consciência autocrítica
Suscita sua dúvida mais uma vez;
Minha Hora de inventar entidades:
Atribuir culpados e dar nome aos bois
Decapitar os góis
E também os judeus.
Aproveitar a covardia reacionária,
Fazer brotar atentados da fraqueza.
Preparo meu ato de vandalismo:
Quero um cigarro.
Tragar a fumaça e com o isqueiro
Atear fogo ao mais gélido pesar,
Pôr abaixo o castelo das incertezas
E partir de uma vez do cruel Sonhar.
Que o maestro Duprat não pensou em fazer.
Pensamentos em círculos imperfeitos
Devoram a você e ao pobre giramundo.
Um lapso de consciência autocrítica
Suscita sua dúvida mais uma vez;
Minha Hora de inventar entidades:
Atribuir culpados e dar nome aos bois
Decapitar os góis
E também os judeus.
Aproveitar a covardia reacionária,
Fazer brotar atentados da fraqueza.
Preparo meu ato de vandalismo:
Quero um cigarro.
Tragar a fumaça e com o isqueiro
Atear fogo ao mais gélido pesar,
Pôr abaixo o castelo das incertezas
E partir de uma vez do cruel Sonhar.
domingo, 19 de novembro de 2006
Domingo legal
Enquanto o mundo pega fogo
O povo está preocupado
Com quem dança melhor sobre o gelo,
Cultivando a nova tradição de neve
Na televisão do Brasil.
Sílvio Santos vem aí
E sua trupe de noivas desesperadas
Sorrindo à frente do cenário róseo
De paixão compactada de audiência, -
Lágrimas de moças escorrem nas faces,
Saliva viscosa verte pelo queixo dos namorados
As unhas desaparecem nas tardes
Dos clássicos cariocas, nervosos e cheios de charme. -
único alento no suplício dominical.
Cerveja, churrasco e cavaquinho afinado,
De olho na nova propaganda etílica do Zeca,
A nova diversão do ano
E a mesma loura gelada.
São os dias que não podem durar para sempre.
E esqueçam também a segunda-feira, por favor.
O povo está preocupado
Com quem dança melhor sobre o gelo,
Cultivando a nova tradição de neve
Na televisão do Brasil.
Sílvio Santos vem aí
E sua trupe de noivas desesperadas
Sorrindo à frente do cenário róseo
De paixão compactada de audiência, -
Lágrimas de moças escorrem nas faces,
Saliva viscosa verte pelo queixo dos namorados
As unhas desaparecem nas tardes
Dos clássicos cariocas, nervosos e cheios de charme. -
único alento no suplício dominical.
Cerveja, churrasco e cavaquinho afinado,
De olho na nova propaganda etílica do Zeca,
A nova diversão do ano
E a mesma loura gelada.
São os dias que não podem durar para sempre.
E esqueçam também a segunda-feira, por favor.
domingo, 12 de novembro de 2006
Nuvem de primavera
A seriedade cinzenta dos estudantes
Duas semanas antes do vestibular
Ocupa as horas de austero marchar
E mancha as flores exuberantes
Eu; quero meu sol de primavera,
O brilho amarelado no arvoredo
As tardes de passeios sem medo,
Casais empertigados nos bancos de outrora
Rojões para os conservadores!
A transgressão juvenil –
O gato engoliu,
Atulhou-se em implantados amores
Carro, novela, dinheiro e umbigo.
Duas semanas antes do vestibular
Ocupa as horas de austero marchar
E mancha as flores exuberantes
Eu; quero meu sol de primavera,
O brilho amarelado no arvoredo
As tardes de passeios sem medo,
Casais empertigados nos bancos de outrora
Rojões para os conservadores!
A transgressão juvenil –
O gato engoliu,
Atulhou-se em implantados amores
Carro, novela, dinheiro e umbigo.
segunda-feira, 6 de novembro de 2006
Bolsa de valores
Não somos capazes de não estranhar
As nuanças da futilidade em cada esquina,
Queimando no seio de cada corpo,
Que serve uma refeição flambada de frieza ártica, -
Apenas um petisco antes do prato final:
Um magnífico banquete de ignorância
Aos cérebros e toques,
Aos mundos fronteiriços
De arrevesado comportamento. –
A planície da bondade e concórdia.
De lá, aceitam apenas cédulas e moedas.
Pernas e olhares dispostos perpendiculares,
Atravessam as ruas deixando pegadas
De repressão egoísta em benefício ao bolso
E à autoridade burocrática do solado da porta.
Quando pais experimentam das vicissitudes da idade,
Ordenam infelizes conservadores –
Irreconhecíveis aos vinte anos,
Pensando que seria mais fácil
Com a moeda do Patinhas.
São os engenheiros de uma construção
Alicerçada em suas instabilidades.
O casamento indesejado, o filho na hora errada.
Pior: aprender os idiotismos do trabalho forçoso. –
Filho, Neto, Júnior, atirados às feras
Da hereditariedade seguimentista.
A arma que compele
É o padre que unge e abençoa
Em memória ao martírio do Cristo crucificado,
É a chinelada na mão da criança
Da família unida e tradicional,
É a vovó pedindo perdão por sessenta anos
Pelo pecado original da única vez.
O sustento da tradição não é o sustento do corpo.
As moedas tilintam nos cofres
De segredos indecifráveis,
Traduzem as famílias de desconhecidos,
Que habitam juntos o mesmo lar,
E que só conhecem dos outros,
Os rostos manchados por espinhas.
Dê-lhes um reajuste fiscal,
Penteie seus filhos, prepare o futuro empresário,
Deixe sobre sua escrivaninha notas azuis,
Garoupas e boletins escolares
Transformemos o mundo em papéis e gravatas, -
É a volta dos grandes répteis – que agora se permitem
A vestir-se e a negociar.
As nuanças da futilidade em cada esquina,
Queimando no seio de cada corpo,
Que serve uma refeição flambada de frieza ártica, -
Apenas um petisco antes do prato final:
Um magnífico banquete de ignorância
Aos cérebros e toques,
Aos mundos fronteiriços
De arrevesado comportamento. –
A planície da bondade e concórdia.
De lá, aceitam apenas cédulas e moedas.
Pernas e olhares dispostos perpendiculares,
Atravessam as ruas deixando pegadas
De repressão egoísta em benefício ao bolso
E à autoridade burocrática do solado da porta.
Quando pais experimentam das vicissitudes da idade,
Ordenam infelizes conservadores –
Irreconhecíveis aos vinte anos,
Pensando que seria mais fácil
Com a moeda do Patinhas.
São os engenheiros de uma construção
Alicerçada em suas instabilidades.
O casamento indesejado, o filho na hora errada.
Pior: aprender os idiotismos do trabalho forçoso. –
Filho, Neto, Júnior, atirados às feras
Da hereditariedade seguimentista.
A arma que compele
É o padre que unge e abençoa
Em memória ao martírio do Cristo crucificado,
É a chinelada na mão da criança
Da família unida e tradicional,
É a vovó pedindo perdão por sessenta anos
Pelo pecado original da única vez.
O sustento da tradição não é o sustento do corpo.
As moedas tilintam nos cofres
De segredos indecifráveis,
Traduzem as famílias de desconhecidos,
Que habitam juntos o mesmo lar,
E que só conhecem dos outros,
Os rostos manchados por espinhas.
Dê-lhes um reajuste fiscal,
Penteie seus filhos, prepare o futuro empresário,
Deixe sobre sua escrivaninha notas azuis,
Garoupas e boletins escolares
Transformemos o mundo em papéis e gravatas, -
É a volta dos grandes répteis – que agora se permitem
A vestir-se e a negociar.
segunda-feira, 30 de outubro de 2006
Algumas lições
Numa triste casa pobre e pequena,
De uma cidade grande qualquer,
Há um feixe multicor, daqueles bem falantes,
E cheio de elétrons – apaixona os visitantes, -
Estes não o deixam arrefecer.
Luz mal guardada na sala de jantar,
Que os insetos circundam em adoração,
Por sobre a toalha colorida por arabescos
No registro preguiçoso das horas às duas, -
Marasmo da sesta latino-americana
Onde os dias mal passam no calendário de girassol,
Contando os costumes de Itaparica
Allons-nous en, mes amis! – começa a aula viajante
De língua francesa, virando à esquerda para o selvagem
Brasil tupi, bem antes dos casos do sertão,
Embarcamos na canoa dos índios, conduzida pelo timoneiro ancião.
Em Meca, anjos maometanos que não crê,
Apresentaram-lhe o idioma do cão.
Versou com as escrituras vermelhas por ingênuo amor,
Bradando os ensinamentos de Marx e as ações de Lênin!
Entre o vinho e a água aprendeu alemão com Goethe e os estudantes.
Poderia adentrar o Olimpo falando a língua dos deuses,
Mas certamente rejeitaria seu manjar demagógico
As noites ébrias com russos e russas foram substituídas
Pelas madrugadas nos porões do Capelão,
De surras aguardadas em aflição e temor
Medo de não mais poder beijar sua esposa e sua prole,
Chorosa no martírio e na abrupta felicidade,
Dias depois, pelo regresso da aurora e do pai.
Derramou sobre as camas das crianças sem sobejos
As histórias da infância de malas nas mãos pela Bahia,
Dançando o samba de roda nos terreiros,
Em companhia da mãe nos feitiços de pedras mágicas,
Abalou a crença do babalorixá ao tocá-las
Ignorando as rígidas admoestações dos frades,
Fugindo com seu pai para o lanche das emoções,
Compartilharam e fizeram as histórias seculares do Sodré
Sem saber nadar nas lágrimas vertidas pelo seu herói
Ao ver no guarda da esquina seu sobrinho desconhecido
Coincidências que só o sortilégio das luas pode sustentar
Hoje, a luz irradia a esperança cheia de têmpera.
Experiente, guia as turmas de jovens,
Aconselha e afaga a mente dos Sonhadores
Com a baianidade e simplicidade sofisticada
Jamais vista num par de olhos.
Duas horas de latido de cão bobo,
Passeios na Antigüidade e nas velhas páginas das gramáticas
Desenhando mapas dos globos da alma e da Terra.
Finda a aula, é hora da compra diária de pão francês
E a luz, mais vermelha que nunca,
Sobe a ladeira, rumo à boulangerie.
De uma cidade grande qualquer,
Há um feixe multicor, daqueles bem falantes,
E cheio de elétrons – apaixona os visitantes, -
Estes não o deixam arrefecer.
Luz mal guardada na sala de jantar,
Que os insetos circundam em adoração,
Por sobre a toalha colorida por arabescos
No registro preguiçoso das horas às duas, -
Marasmo da sesta latino-americana
Onde os dias mal passam no calendário de girassol,
Contando os costumes de Itaparica
Allons-nous en, mes amis! – começa a aula viajante
De língua francesa, virando à esquerda para o selvagem
Brasil tupi, bem antes dos casos do sertão,
Embarcamos na canoa dos índios, conduzida pelo timoneiro ancião.
Em Meca, anjos maometanos que não crê,
Apresentaram-lhe o idioma do cão.
Versou com as escrituras vermelhas por ingênuo amor,
Bradando os ensinamentos de Marx e as ações de Lênin!
Entre o vinho e a água aprendeu alemão com Goethe e os estudantes.
Poderia adentrar o Olimpo falando a língua dos deuses,
Mas certamente rejeitaria seu manjar demagógico
As noites ébrias com russos e russas foram substituídas
Pelas madrugadas nos porões do Capelão,
De surras aguardadas em aflição e temor
Medo de não mais poder beijar sua esposa e sua prole,
Chorosa no martírio e na abrupta felicidade,
Dias depois, pelo regresso da aurora e do pai.
Derramou sobre as camas das crianças sem sobejos
As histórias da infância de malas nas mãos pela Bahia,
Dançando o samba de roda nos terreiros,
Em companhia da mãe nos feitiços de pedras mágicas,
Abalou a crença do babalorixá ao tocá-las
Ignorando as rígidas admoestações dos frades,
Fugindo com seu pai para o lanche das emoções,
Compartilharam e fizeram as histórias seculares do Sodré
Sem saber nadar nas lágrimas vertidas pelo seu herói
Ao ver no guarda da esquina seu sobrinho desconhecido
Coincidências que só o sortilégio das luas pode sustentar
Hoje, a luz irradia a esperança cheia de têmpera.
Experiente, guia as turmas de jovens,
Aconselha e afaga a mente dos Sonhadores
Com a baianidade e simplicidade sofisticada
Jamais vista num par de olhos.
Duas horas de latido de cão bobo,
Passeios na Antigüidade e nas velhas páginas das gramáticas
Desenhando mapas dos globos da alma e da Terra.
Finda a aula, é hora da compra diária de pão francês
E a luz, mais vermelha que nunca,
Sobe a ladeira, rumo à boulangerie.
segunda-feira, 16 de outubro de 2006
O Sarcasmo das Flores
O céu azul com poucas nuvens
E o desabrochar primaveril dos bosques
Urbanos de ipê-rosa,
Todo este clichê do renascer à esta estação
Não significa mais que uma dolorosa ironia
Das petulantes pétalas, impetuosas ao ferir
A indisposição inabalável do amigo Jair.
Passeia pelos cômodos sorumbático
Abre as janelas – extravasa cheiro de consultório médico,
A rua decompõe-se em recém-impregnado olor místico
Que parte do casebre deprimido e exótico
Precipitando troça nauseabunda no passeio público.
Este foi o dia de suas exéquias sociais –
Julgava-se desimportante e vestigial,
Uma pústula comunitária
Mas foi surpreendido por sua plenitude microcósmica;
Ser alvo dos folguedos crocitados até pelas partículas de poeira,
Talvez fosse sua formação universitária –
Desempenhava com louvor seu papel de ser
Isolado pelos próximos e demagógico consigo mesmo
Na congeladora vastidão siberiana de seu cérebro
Imprestável desajeitado à vida da porta para fora,
Uma pena ele nem ao menos se suportar.
Fantástica atuação de sua pobre estagnada realidade
Clap, clap, clap, clap.
Tenro vitelo proposto ao abatimento,
Entregue aos predadores da alma,
Derrotado pelos anseios adormecidos,
Malogrado viver fadado ao fim suicida
Jair que já foi, sem nem sair do lugar.
E o desabrochar primaveril dos bosques
Urbanos de ipê-rosa,
Todo este clichê do renascer à esta estação
Não significa mais que uma dolorosa ironia
Das petulantes pétalas, impetuosas ao ferir
A indisposição inabalável do amigo Jair.
Passeia pelos cômodos sorumbático
Abre as janelas – extravasa cheiro de consultório médico,
A rua decompõe-se em recém-impregnado olor místico
Que parte do casebre deprimido e exótico
Precipitando troça nauseabunda no passeio público.
Este foi o dia de suas exéquias sociais –
Julgava-se desimportante e vestigial,
Uma pústula comunitária
Mas foi surpreendido por sua plenitude microcósmica;
Ser alvo dos folguedos crocitados até pelas partículas de poeira,
Talvez fosse sua formação universitária –
Desempenhava com louvor seu papel de ser
Isolado pelos próximos e demagógico consigo mesmo
Na congeladora vastidão siberiana de seu cérebro
Imprestável desajeitado à vida da porta para fora,
Uma pena ele nem ao menos se suportar.
Fantástica atuação de sua pobre estagnada realidade
Clap, clap, clap, clap.
Tenro vitelo proposto ao abatimento,
Entregue aos predadores da alma,
Derrotado pelos anseios adormecidos,
Malogrado viver fadado ao fim suicida
Jair que já foi, sem nem sair do lugar.
sexta-feira, 13 de outubro de 2006
Uma pesquisa paciente fará você ficar mais feliz e inteligente
Você é feliz? Esta pergunta está com certeza entre o grupo das mais complicadas de responder, pelo menos para mim. Nos últimos anos, institutos de pesquisa têm feito bastantes inquéritos à população sobre felicidade, fazendo exatamente a mesma pergunta do início deste texto. Há o “sim”, o “não” e o “não sabe/não respondeu”. Particularmente, repudio esta última opção de resposta – ou de não-resposta.
Ou a pessoa é ignorante demais para não responder ao pobre pesquisador ou demonstra simples falta de personalidade. Não sabe se é feliz? Bom, peça um tempo ao realizador do teste e analise, é o mínimo que pode pedir a ele. O recenseador não pode ceder-lhe tempo para responder? Paciência. Apenas peça para não constar na pesquisa como um dos que dizem não saber ou um dos mal-educados que ignoraram os homens e mulheres que com solércia realizam as pesquisas.
Se o pesquisador fizer a chula ameaça de colocá-lo nesse setor da pesquisa, argumente, lembre-se de quem fez birra primeiro foi você. Acaba virando uma questão de honra, uma pequena volta à infância e às briguinhas com os coleguinhas de sala; os chutes nas canelas e os arranhões nos braços. Você pode optar por uma dialética mais radical: mande-o enfiar essa mesquinha pesquisa neoliberal cosmopolita reto acima. Acalme-se! Não vá fazer isso com o bem-vestido entrevistador! Ou quer ser preso? Além de infeliz vão chamá-lo louco. É isso que quer? Não se desespere. Isso, isso. Está perto de conseguir, falando manso, dizendo que tem vergonha de aparecer nessas pesquisas, que é pressão demais para você. Pronto. Ele não te pôs na pesquisa. Agora você é apenas mais um dos malucos das cidades grandes.
Afinal, seria normal se demorasse de responder esta pergunta. Este não é o tipo de coisa que se tem uma resposta na ponta da língua sempre. O estado de espírito atual sempre influi, é óbvio. Mas levando em conta a intenção generalizante da pesquisa de uma vida feliz ou amargurada, é necessário que se pese os fatos. Eu mesmo, dezessete anos, teria que pedir umas boas duas horas pra montar um arquétipo de vida, e, ainda assim, não teria certeza ao responder. Teria apenas uma idéia passageira. Enfim, estas pesquisas de bate-pronto são a maior bobeira que existe e talvez elas só meçam o nível de precipitação da população. Elas são falhas. Uma pessoa extremamente irônica pode responder que é triste quando não o é; ou algumas pessoas com dificuldade de aceitarem-se tristes, preferem enganar a si mesmos com palavras de felicidade, e isto é o mais comum. Seres humanos adoram se enganar, e não há nada que eu possa fazer para mudar isto.
Ou a pessoa é ignorante demais para não responder ao pobre pesquisador ou demonstra simples falta de personalidade. Não sabe se é feliz? Bom, peça um tempo ao realizador do teste e analise, é o mínimo que pode pedir a ele. O recenseador não pode ceder-lhe tempo para responder? Paciência. Apenas peça para não constar na pesquisa como um dos que dizem não saber ou um dos mal-educados que ignoraram os homens e mulheres que com solércia realizam as pesquisas.
Se o pesquisador fizer a chula ameaça de colocá-lo nesse setor da pesquisa, argumente, lembre-se de quem fez birra primeiro foi você. Acaba virando uma questão de honra, uma pequena volta à infância e às briguinhas com os coleguinhas de sala; os chutes nas canelas e os arranhões nos braços. Você pode optar por uma dialética mais radical: mande-o enfiar essa mesquinha pesquisa neoliberal cosmopolita reto acima. Acalme-se! Não vá fazer isso com o bem-vestido entrevistador! Ou quer ser preso? Além de infeliz vão chamá-lo louco. É isso que quer? Não se desespere. Isso, isso. Está perto de conseguir, falando manso, dizendo que tem vergonha de aparecer nessas pesquisas, que é pressão demais para você. Pronto. Ele não te pôs na pesquisa. Agora você é apenas mais um dos malucos das cidades grandes.
Afinal, seria normal se demorasse de responder esta pergunta. Este não é o tipo de coisa que se tem uma resposta na ponta da língua sempre. O estado de espírito atual sempre influi, é óbvio. Mas levando em conta a intenção generalizante da pesquisa de uma vida feliz ou amargurada, é necessário que se pese os fatos. Eu mesmo, dezessete anos, teria que pedir umas boas duas horas pra montar um arquétipo de vida, e, ainda assim, não teria certeza ao responder. Teria apenas uma idéia passageira. Enfim, estas pesquisas de bate-pronto são a maior bobeira que existe e talvez elas só meçam o nível de precipitação da população. Elas são falhas. Uma pessoa extremamente irônica pode responder que é triste quando não o é; ou algumas pessoas com dificuldade de aceitarem-se tristes, preferem enganar a si mesmos com palavras de felicidade, e isto é o mais comum. Seres humanos adoram se enganar, e não há nada que eu possa fazer para mudar isto.
quinta-feira, 12 de outubro de 2006
alô
É, começando por aqui.
Tudo o que eu publiquei de julho ao início de outubro se encontra aqui:
http://febreonivoradeobservacao.weblogger.terra.com.br/
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