Apertou o pranto velho
Um homem, velho e órfão,
Nem mais nem menos órfão
Que a criança do sinal
Ou o jovem desempregado
Acontece de jazer
No repouso de uma casa,
Que sabia não ser sua,
Nem dos contemporâneos,
Alguns remediados,
Com ferida pensada.
Seu time deixou as glórias,
Sem dinheiro, foi lacrado.
Quando acabou o futebol,
Os netos entraram
Em campo.
Como as pernas no bonde,
A felicidade logo passou.
Enlouquecido pelas bocas filhas,
Sabia lúcidas as palavras
Que o tinham no hospício.
No mundo cão:
Os aviões caíram,
As covas são abertas
Sem maiores cerimônias.
No mundo fantasma:
O travesseiro ouve os monólogos
E a televisão é o mais sincero
E metalingüístico informante do
Cruel extra-bunker.
terça-feira, 31 de julho de 2007
terça-feira, 24 de julho de 2007
Ah, Paris!

- Eu queria encontrar alguém em paris e começar uma banda...
- Com esses concerts à emporter¹, tá facinho. L'amour en Paris!
Silêncio.
- Olha lá - apontando para os Mana Mana, da Vila Sésamo - na TV -, se conheceram em Paris. - Apontando para vegetais dançantes, em outro canal - Eles também. Tá parecendo propaganda da cidade, em um flyer turístico...
- Flyer matrimonial.
- E que é Paris? Uma agência matrimonial em forma de cidade!
quinta-feira, 19 de julho de 2007
Cofres de suor
Suam como suínos os suecos
estirados nas descansadeiras
do convés do transatlântico,
escorrem pelos torsos róseos
os fluidos que se hospedarão,
efêmeros, nas caixas-fortes.
Lá embaixo, pretos e brancos,
pretos de fuligem,
brancos de farinha,
equilibram arrobas sobre os crânios.
estirados nas descansadeiras
do convés do transatlântico,
escorrem pelos torsos róseos
os fluidos que se hospedarão,
efêmeros, nas caixas-fortes.
Lá embaixo, pretos e brancos,
pretos de fuligem,
brancos de farinha,
equilibram arrobas sobre os crânios.
Um imitador de Verger busca
os melhores ângulos para sua
exposição fleumática londrina.
Grandes empresários ganham as
ruas de paralelepípedos
e edifícios quinhentistas.
Um sobressalto por um souvenir!
Perguntam ao artista nativo:
"Quanto custa este arquétipo colonial?"
E conferem em volta o turismo histórico,
in loco: o século XVI.
os melhores ângulos para sua
exposição fleumática londrina.
Grandes empresários ganham as
ruas de paralelepípedos
e edifícios quinhentistas.
Um sobressalto por um souvenir!
Perguntam ao artista nativo:
"Quanto custa este arquétipo colonial?"
E conferem em volta o turismo histórico,
in loco: o século XVI.
terça-feira, 26 de junho de 2007
Estanque, parte II
Oitenta por cento da vida
Indeferida e ainda tido
Como descontrolado, ao descobrir o sol
Do meio-dia e sem cobertor,
É mais uma amostra do horror
Somado por todo os anos.
Há mantras impressos no monitor,
Mas a ladainha, que deveria ser monástica
Não é nada calma e nem segue
Os escritos
Os gritos, iracundos,
A quaisquer sencientes profundos
Ou doutrina que a negue.
Como criança, escorre para sob o colchão
Vai viver com as aranhas,
Não lhe importa a rinite,
Queria ser réptil,
Escondido da luz e dos bombardeios
Reais, depois de três dias
Preenchidos por bombas
Juninas numa rua rosada,
Ladeira da preguiça.
Tristeza demais para uma solidão,
Aponta para cima e sobe a ladeira,
Sorriu por três dias e caiu do alto,
Em pranto de poeta.
Se é negra
Toda a tristeza e felicidade dessa vida.
Acordava o negro mais sorridente
Que poderia existir nas janelas.
Tudo abortado,
Como quase o foi.
Indeferida e ainda tido
Como descontrolado, ao descobrir o sol
Do meio-dia e sem cobertor,
É mais uma amostra do horror
Somado por todo os anos.
Há mantras impressos no monitor,
Mas a ladainha, que deveria ser monástica
Não é nada calma e nem segue
Os escritos
Os gritos, iracundos,
A quaisquer sencientes profundos
Ou doutrina que a negue.
Como criança, escorre para sob o colchão
Vai viver com as aranhas,
Não lhe importa a rinite,
Queria ser réptil,
Escondido da luz e dos bombardeios
Reais, depois de três dias
Preenchidos por bombas
Juninas numa rua rosada,
Ladeira da preguiça.
Tristeza demais para uma solidão,
Aponta para cima e sobe a ladeira,
Sorriu por três dias e caiu do alto,
Em pranto de poeta.
Se é negra
Toda a tristeza e felicidade dessa vida.
Acordava o negro mais sorridente
Que poderia existir nas janelas.
Tudo abortado,
Como quase o foi.
sábado, 16 de junho de 2007
Implícito
O sorriso amarelo de desdém
ao ouvir uma asneira
de um semi-conhecido.
Traços de preconceito
embutidos na construção
de neo-senzalas,
quartos de domésticas.
Cupins que armam
sua emboscada aos móveis,
nos túneis construídos
por entre as rachaduras
de paredes mofada.
Gestos de pura singeleza,
em homenagem ao desconhecido,
pequenas peripécias
desimportantes.
O fim de um poema.
ao ouvir uma asneira
de um semi-conhecido.
Traços de preconceito
embutidos na construção
de neo-senzalas,
quartos de domésticas.
Cupins que armam
sua emboscada aos móveis,
nos túneis construídos
por entre as rachaduras
de paredes mofada.
Gestos de pura singeleza,
em homenagem ao desconhecido,
pequenas peripécias
desimportantes.
O fim de um poema.
quarta-feira, 13 de junho de 2007
Sorte ou Revés
Desolação de Las Vegas,
perdeu-se, no néon de Nevada,
no tilintar da prata
nos caça-níqueis.
enfiou a mão no bolso,
últimas moedas - testou a sorte:
sete, sete - sorriu, suspirou -
cereja.
engoliu em seco,
na amplitude térmica da cidade
o choro é invisível.
passa o vento,
levanta a areia
no deserto,
onde caiu sua vida.
perdeu-se, no néon de Nevada,
no tilintar da prata
nos caça-níqueis.
enfiou a mão no bolso,
últimas moedas - testou a sorte:
sete, sete - sorriu, suspirou -
cereja.
engoliu em seco,
na amplitude térmica da cidade
o choro é invisível.
passa o vento,
levanta a areia
no deserto,
onde caiu sua vida.
segunda-feira, 7 de maio de 2007
Descobri que somos anjos
Ontem eu vi um serzinho tão delicado, tal qual um Pequeno Príncipe. Foi assim que eu descobri que todo mundo é – ou esqueceu que é – anjo. Era daquele tipo especial de pessoa que a gente não sabe de início se é menino ou menina – e nem precisa, nem deve e na verdade nem se importa. Daquele tipo que faz o machão pensar enlouquecidamente que olha para uma fêmea e que faz uma moça de família pensar num ex-sapo cheio de testosterona – tudo para não colocar em xeque suas heterossexualidades paranóicas e homofóbicas, porque cheias de incertezas. Mas não, com os anjos não. Anjos se dividem com todos, atraem os olhares. Alguns espalham ideologias dessa maneira. Ocupam as mentes por serem tão delicados que chegam a ser ofensivos. Etéreos. Libertários.
Mas essa parcela da população – infelizmente a grande maioria – esquece que anjo não tem sexo e começa a fazer alvoroço sobre seu gênero – e até sobre a etnia dos multi-cores anjinhos. Só que o menos importante num primeiro contato e num primeiro desejo – e anjo sabe disso e se deseja loucamente, avermelhando de paixão o azul-turquesa do paraíso; triplicam a intensidade de paz presente nas nuvenzinhas em que estão montados. Mas há teimosos que insistem, clássicos, em se humanizar. Cortam as asas e despencam em pinguinhos de chuva. Água de anjos cadentes. Colidem com o chão e entram em profundo estado de amnésia: um lapso rapidíssimo que não dura um frame fotográfico e pronto, desangelicalizado está. Esquecem que são anjos.
Acredito que, de forma involuntária, García Márquez descobriu o dilema sobre a expressão de convalescença dos anjinhos barrocos: como é difícil viver ciente de que a maioria dos outros anjos é divorciada das auréolas. E, dessa forma, muitos partem em exílio, como fez Remedios, a bela, no seu Cem Anos de Solidão. Os anjos cansam, tentando alertar as pessoas que todo mundo é anjo, como eles, mas chegar a essa memória nos cérebros alheios é uma tarefa árdua. A lembrança encontra-se num ponto quase inalcançável, de modo que é muito difícil reavivar mentes. Durante muito tempo os anjos iam presos por tentarem propagar qualquer ideiazinha que pensavam. Trancafiados em um lugar distante deste cabaré depravado, Charles, Jorges, Eveys e tantos outros heterônimos não podia se manifestas. Hoje, aos poucos, começam a engatinhar.
Anjos defendem a negação do pintinho e da periquitinha como fator número um para a existência do primeiro desejo – e, eventualmente um segundo, terceiro, quadragésimo sexto... -, de qualquer ordem que seja. Anjo sabe que o desejo possui caráter transcendental, e que a gente só deve se preocupar com sua inexistência. E como vão as coisas my friend Charles?
Mas essa parcela da população – infelizmente a grande maioria – esquece que anjo não tem sexo e começa a fazer alvoroço sobre seu gênero – e até sobre a etnia dos multi-cores anjinhos. Só que o menos importante num primeiro contato e num primeiro desejo – e anjo sabe disso e se deseja loucamente, avermelhando de paixão o azul-turquesa do paraíso; triplicam a intensidade de paz presente nas nuvenzinhas em que estão montados. Mas há teimosos que insistem, clássicos, em se humanizar. Cortam as asas e despencam em pinguinhos de chuva. Água de anjos cadentes. Colidem com o chão e entram em profundo estado de amnésia: um lapso rapidíssimo que não dura um frame fotográfico e pronto, desangelicalizado está. Esquecem que são anjos.
Acredito que, de forma involuntária, García Márquez descobriu o dilema sobre a expressão de convalescença dos anjinhos barrocos: como é difícil viver ciente de que a maioria dos outros anjos é divorciada das auréolas. E, dessa forma, muitos partem em exílio, como fez Remedios, a bela, no seu Cem Anos de Solidão. Os anjos cansam, tentando alertar as pessoas que todo mundo é anjo, como eles, mas chegar a essa memória nos cérebros alheios é uma tarefa árdua. A lembrança encontra-se num ponto quase inalcançável, de modo que é muito difícil reavivar mentes. Durante muito tempo os anjos iam presos por tentarem propagar qualquer ideiazinha que pensavam. Trancafiados em um lugar distante deste cabaré depravado, Charles, Jorges, Eveys e tantos outros heterônimos não podia se manifestas. Hoje, aos poucos, começam a engatinhar.
Anjos defendem a negação do pintinho e da periquitinha como fator número um para a existência do primeiro desejo – e, eventualmente um segundo, terceiro, quadragésimo sexto... -, de qualquer ordem que seja. Anjo sabe que o desejo possui caráter transcendental, e que a gente só deve se preocupar com sua inexistência. E como vão as coisas my friend Charles?
sexta-feira, 6 de abril de 2007
Encíclica número um
O depressivo pressiona a lâmina a seu pulso,
e, morto, vai ao Inferno.
O crente, flagela-se em penitência,
e recebe um presente dos céus.
É a justiça divina,
inquestionável,incólume.
Natal, Quaresma, Páscoa:
a hipocrisia tem seus feriados.
Pequemos o ano todo; vamos ao confessionário.
e não comamos carne na sexta-feira santa.
e, morto, vai ao Inferno.
O crente, flagela-se em penitência,
e recebe um presente dos céus.
É a justiça divina,
inquestionável,incólume.
Natal, Quaresma, Páscoa:
a hipocrisia tem seus feriados.
Pequemos o ano todo; vamos ao confessionário.
e não comamos carne na sexta-feira santa.
quarta-feira, 4 de abril de 2007
Brinquedo de Papel Crepom
Queria tomar três caixas de analgésicos. Queria atravessar as ruas rastejando, para que os carros passassem por cima de seu corpo pálido e macilento. Não se importava mais com sua integridade física. Mas estava ali, num banco de praça, com as mãos nas têmporas, pensando em tudo que lhe havia acontecido desde o primeiro dia do ano. Pensou que se rastejasse no cruzamento mais movimentado da cidade seria, no mínimo, um desafiante aos habitantes de sua cidade, que atravessavam todas as ruas, até mesmo as estreitas, onde os meninos jogam bola durante toda a tarde, correndo, apavoradas. Fogem dos veículos, as neuróticas. Mas não era em desobediência civil que sua cabeça estava focada no momento. Na verdade, sim. Suicídio é uma das maiores ações de desobediência. Mas não dava a mínima para isso agora. Não nesse momento.
Tentava lembrar das promessas que lhe foram feitas no dia em que chorou pela primeira vez entre os familiares à beira de uma piscina, num dia de férias. Sabia que não tinham sido cumpridas, mas queria fazer um exercício de auto-comiseração. Sentir-se traído pelos familiares, coitado. Mas, o que se pode esperar das pessoas? Aos dezoito, elas só pensam em sexo, carros do ano e rir de coisas bobas. Aos trinta e oito, nos filhos, nas dívidas e, sexo, só de forma esporádica, em descarga mensal de prazer acumulado. Não são confiáveis. Mas ele lhes deu um voto de confiança. Em vão. A mesma briga, por qualquer motivo pequeno, como, por exemplo, criticar o comportamento sedentário de sua mãe, explodiu em mais uma reação de choro, gritos e direções apressadas no trânsito lento daquela rua de duas faixas. Mal chegou em casa, já estava de saída. Pisoteou furiosamente triste a calçada de pedras portuguesas azuis e brancas que o levavam até a avenida. Não olhou para os lados nenhuma vez. Um conhecido chato – eles sempre aparecem nas piores horas - lhe acenou e gritou. Não respondeu. Cabeça baixa, pensamentos confusos. Tinha vontade de chorar, mas seu sistema nervoso continha-no. Sempre o conteve, por mais que ele quisesse chorar e gritar de pavor. Só lhe permitia extravasar tudo em raiva. A mais pura violência disfarçando a tristeza extrema. Era tão contido que, quando deparou com o tráfego da avenida apressou o passo, assim que pôde, para não ser atropelado. Ali percebeu que, de fato, não queria sumir. Mas queria alguma violência. Mais uma vez, conteve-se.
Sentou-se no banco e ficou numa posição de lótus fajuta por um tempo. Os minutos pareciam levar mais tempo para passar, como acontece sempre que nos apegamos a algo emocionalmente forte. O fluxo de pessoas era razoável naquele corredor entre um monumento que tentava ser pós-moderno e seu banco de madeira. Algumas o olhavam de soslaio, outras de maneira dissimulada. Começara a enumerar os motivos que o faziam deixar sua vida seguir o curso quando resolveu interromper a prática – que julgou infantil e poser - para pegar o Caio Fernando Abreu que levava a tiracolo. Procurou o texto que tinha o nome mais triste entre os agrupados no índice. A Morte dos Girassóis lhe soou triste, entre os quais ainda não havia lido, e ainda lhe trazia familiaridade. Leu, e viu que era um texto sobre não interromper a vida de súbito. Fôra publicado no dia de seu aniversário, em um ano qualquer do passado recente. Daquelas coincidências terrivelmente estarrecedoras. Sentiu frio, mesmo que o termômetro do hospital teimasse a indicar vinte e sete graus de um dia sem vento às cinco da tarde. Estava com as mãos em volta de seus ombros, seu corpo tremia, seus dentes tremelicavam. E o livro estava jogado, de lado. Não conseguia encarar mais aquele homem escutando algo no quarto ao lado através de um copo de vidro. Não podia ver o livro com a mesma naturalidade de antes. Também descobriu em suas leituras uma série de hábitos de escrita que o Caio F. tinha em comum consigo.
A coincidência o perseguia. E, definitivamente, o assustava. Mais do que deveria, talvez. Já tinha sido surpreendido uma quantidade de vezes incalculável por respostas diretas à questionamentos extremamente pessoais. E estas respostas encontravam-se nos lugares mais... surpreendentes, impróprios, nefastos. Nos rostos dos negros da Boca do Rio. No escrito de um caderno velho no ônibus às seis da tarde. Quantas já tinha encontrado e descartado, por pura falta de memória? Agora se odiava por isso. Mais uma vez. E sabia que iria se odiar de novo, mais uns dias depois, por esquecer qualquer outra coisa. Isso era certo. Três coisas lhe faziam sentido agora:
1 – Dwayne estava certo.
2 – “Uma família é como uma arma carregada / Você aponta-a no sentido errado, alguém vai ser morto”.
3 – Precisava de uma casa submarina. Agora.
No fim de tudo, percebeu que estava perdendo espaço para a vida, para a realidade. Estava sufocado. Tudo lhe era indisponível. As linhas: ocupadas, as pessoas: ocupadas, o cheque: sem fundos. As obrigações lhe tiravam o tempo. Tiravam mais o tempo dos outros que o seu. Mas o tempo deles era seu tempo. O vermelho do seu coração de crepom se esvai no gelo do pólo sul.
Tentava lembrar das promessas que lhe foram feitas no dia em que chorou pela primeira vez entre os familiares à beira de uma piscina, num dia de férias. Sabia que não tinham sido cumpridas, mas queria fazer um exercício de auto-comiseração. Sentir-se traído pelos familiares, coitado. Mas, o que se pode esperar das pessoas? Aos dezoito, elas só pensam em sexo, carros do ano e rir de coisas bobas. Aos trinta e oito, nos filhos, nas dívidas e, sexo, só de forma esporádica, em descarga mensal de prazer acumulado. Não são confiáveis. Mas ele lhes deu um voto de confiança. Em vão. A mesma briga, por qualquer motivo pequeno, como, por exemplo, criticar o comportamento sedentário de sua mãe, explodiu em mais uma reação de choro, gritos e direções apressadas no trânsito lento daquela rua de duas faixas. Mal chegou em casa, já estava de saída. Pisoteou furiosamente triste a calçada de pedras portuguesas azuis e brancas que o levavam até a avenida. Não olhou para os lados nenhuma vez. Um conhecido chato – eles sempre aparecem nas piores horas - lhe acenou e gritou. Não respondeu. Cabeça baixa, pensamentos confusos. Tinha vontade de chorar, mas seu sistema nervoso continha-no. Sempre o conteve, por mais que ele quisesse chorar e gritar de pavor. Só lhe permitia extravasar tudo em raiva. A mais pura violência disfarçando a tristeza extrema. Era tão contido que, quando deparou com o tráfego da avenida apressou o passo, assim que pôde, para não ser atropelado. Ali percebeu que, de fato, não queria sumir. Mas queria alguma violência. Mais uma vez, conteve-se.
Sentou-se no banco e ficou numa posição de lótus fajuta por um tempo. Os minutos pareciam levar mais tempo para passar, como acontece sempre que nos apegamos a algo emocionalmente forte. O fluxo de pessoas era razoável naquele corredor entre um monumento que tentava ser pós-moderno e seu banco de madeira. Algumas o olhavam de soslaio, outras de maneira dissimulada. Começara a enumerar os motivos que o faziam deixar sua vida seguir o curso quando resolveu interromper a prática – que julgou infantil e poser - para pegar o Caio Fernando Abreu que levava a tiracolo. Procurou o texto que tinha o nome mais triste entre os agrupados no índice. A Morte dos Girassóis lhe soou triste, entre os quais ainda não havia lido, e ainda lhe trazia familiaridade. Leu, e viu que era um texto sobre não interromper a vida de súbito. Fôra publicado no dia de seu aniversário, em um ano qualquer do passado recente. Daquelas coincidências terrivelmente estarrecedoras. Sentiu frio, mesmo que o termômetro do hospital teimasse a indicar vinte e sete graus de um dia sem vento às cinco da tarde. Estava com as mãos em volta de seus ombros, seu corpo tremia, seus dentes tremelicavam. E o livro estava jogado, de lado. Não conseguia encarar mais aquele homem escutando algo no quarto ao lado através de um copo de vidro. Não podia ver o livro com a mesma naturalidade de antes. Também descobriu em suas leituras uma série de hábitos de escrita que o Caio F. tinha em comum consigo.
A coincidência o perseguia. E, definitivamente, o assustava. Mais do que deveria, talvez. Já tinha sido surpreendido uma quantidade de vezes incalculável por respostas diretas à questionamentos extremamente pessoais. E estas respostas encontravam-se nos lugares mais... surpreendentes, impróprios, nefastos. Nos rostos dos negros da Boca do Rio. No escrito de um caderno velho no ônibus às seis da tarde. Quantas já tinha encontrado e descartado, por pura falta de memória? Agora se odiava por isso. Mais uma vez. E sabia que iria se odiar de novo, mais uns dias depois, por esquecer qualquer outra coisa. Isso era certo. Três coisas lhe faziam sentido agora:
1 – Dwayne estava certo.
2 – “Uma família é como uma arma carregada / Você aponta-a no sentido errado, alguém vai ser morto”.
3 – Precisava de uma casa submarina. Agora.
No fim de tudo, percebeu que estava perdendo espaço para a vida, para a realidade. Estava sufocado. Tudo lhe era indisponível. As linhas: ocupadas, as pessoas: ocupadas, o cheque: sem fundos. As obrigações lhe tiravam o tempo. Tiravam mais o tempo dos outros que o seu. Mas o tempo deles era seu tempo. O vermelho do seu coração de crepom se esvai no gelo do pólo sul.
segunda-feira, 26 de março de 2007
Boite e Beliche
Sábado de manhã. Eu acordei e já era quase 1 da tarde, então me levantei e tomei uma chuveirada. Fiz a barba, mas ainda não tinha nada combinado para aquela noite.
Tinha ido dormir tarde noite passada, assistindo Intercine. Não foi um filme bom, mas era o que tinha a fazer para economizar pro sábado. Hoje era dia de sair e arranjar alguém.
Qualquer alguém. Já faz quase uma semana desde Mariana e nenhuma mulher têm respondido aos meus apelos internéticos.
Antes de ver o filme tinha mandado uma série de mensagens aleatórias para todos os meus contatos. Meu MSN de 200 contatos offlines, todos mulheres estava cheio de presenciar tal fato. Bem, era difícil que não recebessealgod e volta.
Liguei o pc, enquanto comia uma tigela amolecida de sucrilhos, gotejando leite na mesa. Bingo. Morena_linda38. Não lembro a mensagem que mandei para ela, mas ela dizia: hahahaha, você é o maior!
O maior, e nem me conhecia por inteiro. É isso aí, mulheres gostam de exagerar e puxar o saco, sem ao menos conhecer. Trinta e oito? Deve ser uma tia desesperada.
Mas olhei a foto. tinha um rosto bonito. Provavelmente de uns 10 anos atrás, mas um rosto é uma das poucas coisas que podem fazer ou destruir o charme de uma mulher. E estava online.
Falei com ela com gentileza, como me é pertinente nesses casos. Conversamos um pouco sobre trabalhos, vida pessoal, e por fim, restaurantes. Mas ela preferia algo mais solto, como uma boite.
Lindo. Maravilha mesmo. Um lugar escuro e sem comida, e geralmente esses lugares são caros e tocam músicas insuportáveis. Mas as garotas usam roupas mínimas então creio que não será de todo mau.
Saias curtas. Que maravilha. Ela poderia ter sugerido um baile funk. Seria mais rápido, talvez. Eu iria mais cedo, de qualquer jeito. Ficar um pouco no bar.
Tudo combinado, pus minha camisa de boite, a laranja de botão, tinha até tomado banho. Passei perfume. Essa noite, errar não era opção. Mas logo me arrependi quando senti o cheiro do frasco se misturar ao do desodorante aplicado com displiscência.
Bom, ia ser assim mesmo. Na pista, com os suores, iria passar, ou tornar-se pior. Não iria trocar mais de camisa, de jeito algum. Peguei duas rodelas de limão e fui passando debaixo do braço. Depois que saiu o cheiro, passei um pouco de água e sabonete, e estava pronto.
Saí do apartamento e me dirigi à padaria na frente do prédio. Tomei uma tubaína e um misto quente, para não passar fome na boite e, além do mais, eu sei como eu fico quando bebo de estômago vazio.
Tubaína de guaraná, mas parecia de tutti frutti. Bebi rapidamente e saí correndo quando avistei meu ônibus vindo. Sempre pago antes para não correr o risco de perdê-lo. Um ônibus perdido significa uma hora de espera, onde moro. Subi, apressado, e sentei-me no fundo, esfregando as mãos pela noite que estava por vir.
Desci na Rua Tabatinga. Ficava a duas quadras da boite onde encontraria a morena. O nome dela, ela disse, era Cíntia. Nome de puta, mas achei melhor não comentar.
Cheguei antes do combinado e pedi uma cerveja ao barman. Sentei-me ali mesmo no bar e podia ver as jovens "causando" e "fritando" na "baladinha". Senti uma ereção a caminho.
Apoiei o copo frio nas calças e isso surtiu o efeito desejado. Consegui tomar umas duas cervejas antes de ver a moça chegar. Saia curtíssima, vermelha, blusa prateada e de costas nuas. Espalhafatosa, ainda mais para a idade. Devia estar desesperada.
Ela foi chegando perto e eu percebi porque a foto era antiga: músculos por toda a parte, até nas bochechas. Não sabia mais o que fazer. Eu estava atrás de uma mulher, e não de um fisiculturista.
Ela era magra, está bem. Mas toda musculosa, e aquela roupa que não cobria nada começaram a me dar arrepios. Cumprimentei-a e fui educado, muito mais do que o de costume porque veja bem, ela era bem mais forte do que eu. Eu podia facilmente perder um dente.
Mas perdi a noite. Disse que ia ao banheiro e me mandei dali o mais rápido possível. No caminho, esbarrei numa menina, também morena, magra e de boca irresistivelmente carnuda. Olhou-me provocando, me chamou de tio, e me empurrou contra a parede.
E quem sou eu pra resistir a um ímpeto desses? De qualquer forma, eu estava me sentindo estranhamente passivo, aquela noite, então apenas deixei que ela fizesse de mim o que bem entendesse. Não seria uma noite perdida, afinal.
Ela me apertava com força, como se fosse um homem. Essas jovens de hoje, vão muito à academia, pensei comigo mesmo. Mas estava bom, gostava um pouco dessa coisa masoquista, de ser controlado, ainda mais por uma moça que deveria ter metade da minha idade.
E bonita, ainda por cima.
Vamos sair daqui?
Ela sugeriu, eu acatei. E acatei feliz, aquele não era lugar pra gente da minha idade. Fomos pra rua e o ar gelado nos deu uma bofetada na cara. Fomos nos desenrolando embolados pela rua até que senti uma mão sobre meu ombro.
- Posso ver as carteiras de identidade de vocês? - chegou intimidando um policial mal-encarado. A menina era quase do meu tamanho, imaginei que deveria ter seus vinte anos, e não entendi direito a desconfiança do policial. Estava calmo. O mesmo parecia não acontecer com minha companheira: suava muito e estava com olhos alterados. Entregamos-lhe as carteiras.
Ela tinha dezesseis anos. DEZESSEIS! Meu deus, eu tinha sido pego em flagrante com um filhote de mulher. Naquele momento, só conseguia pensar numa coisa: me fodi. O sujeito soube lidar bem com a situação: me deu um chute nas bolas e me enfiou na viatura. A menina, ele deixou lá, no meio duma avenida escura às 3 da matina.
Veio fazendo piadinhas sobre a vida na cadeia, sobre os estupradores, sobre limpar o chão com uma bola de ferro presa aos pés com uma corrente. Minhas bolas estavam doendo muito, aho que não serviriam mais por uns dois anos. Minha noite forapor água abaixo.
Na delegacia, tentei me explicar como pude. Não sabia da idade dela (isso era verdade), ela parecia mais velha (também verdade), nem cheguei a fazer nada mais do que dar uns amassos com a menina (ainda verdade) e nem ia fazer mais que isso (bingo!). Eles não tinham razões pra duvidar de mim, mas, porra, eu tinha sido pego em flagrante.
- Essa noite, tu vai passar no xadrez. Pra aprender a tomar cuidado com quem você sai bolinando por aí.
Nhéén, cléc. E lá estava eu numa cela diminuta, suja e mal-cheirosa. Se tivesse um pc em vez de um enorme turco peludo, ia ser igualzinha ao meu apartamento.
O turco parecia um daqueles carrascos gordos da Idade Média. Quando entrei estava ajeitando suas bolas dentro da cueca ex-branca que vestia, acompanhada de uma camiseta azul, que deixava nus os pêlos em seus sovacos, no peito e nas costas. Usava um cavanhaque que ressaltava seu nariz adunco e seu olhar doentio.
- Boa noite, doçura, sou Agamenon...
Quase imediatamente, o suor frio desceu pelas minhas costas, empapando minha camisa e inutilizando o efeito das rodelas de limão, que no momento pareciam longínquas como nunca. Ia ter que passar a noite com aquela criatura, e só tinha um beliche no lugar. Tomei coragem e sentei do lado dele. Talvez Agamenon fosse um cara legal, porquê não? Talvez ele estivesse preso por não pagar uma multa de trânsito ou por qualquer outra coisa diretamente oposta ao estupro de homens com camisas laranjas.
Agamenon levantou o colchão e me sugeriu uns cigarros de palha. Aceitei um, e ele pegou outro. Começamos a conversar, livremente. Ele disse que ainda não tínhamos nos cumprimentado, e me estendeu a mão. Apertei-a e ele não quis mais largar a minha mão. Com um dedo tentou alisá-la, e eu rapidamente usei de força para tirar minha mão da dele.
A situação tava começando a pesar pro meu lado. E eu estava cansado tão cansado, só queria que a manhã chegasse logo. Deitei encolhido no beliche, com a bunda encostada na parede, só por precaução. E fiquei torcendo para o turco não ser lá muito fã de dormir de conchinha.
O cansaço me fez dormir. Um dormir muito ruim e precavido, mas ainda assim, um sono. Rápido. Uns trinta minutos depois, sinto uma mão num local indevido. Era Agamenon. Levantei-me num sobressalto e levei uma queda do beliche, de costas. Fingi que não doeu, me pus de pé e fiz um escândalo, gritando pelos guardas, enquanto Agamenon corria atrás de mim como uma fera.
Ele me pegou. Senti o cavanhaque áspero roçando na minha nuca, e uma porção de outras coisas que preferia não sentir. Gritei, gritei a valer de verdade, até que os guardas apareceram e decidiram que ser violado por um turco que cheirava a coalhada azeda era uma pena maior do que eu merecia, e de qualquer forma já era quase de manhã, então eles concordaram em me soltar. Para tristeza de Agamenon, que ainda ficou atirando beijos pra mim através das barras de ferro. Novo acesso de suores frios.
Me veio na cabeça uma música brega que citava seu nome, ecoando, Agamenon, Agamenon. Que triste. Quase cinco da manhã e estava ali, no meio da rua, em frente a uma delegacia num bairro fétido. Talvez fosse melhor ficar por ali e esperar o dia amanhecer para voltar.
Sentei-me na calçada. Em uns dez minutos um veículo com as luzes muito fortes apareceu na esquina, dobrando velozmente em direção à parede da delegacia. A jamanta estraçalhou a recepção e uns cinco homens desceram com armas de grosso calibre. Um deles veio até mim, gritando para eu deitar no chão. Obedeci, e fiquei com seu pé em minha cabeça. Logo os outros saíram da delegacia, acompanhados de Agamenon. Seus olhos castanhos me encaram e brilharam. Ele ordenou que me trouxessem para perto dele e encerrou tudo com uma piscadela. Estava em poder de Agamenon, o conquistador.
Tinha ido dormir tarde noite passada, assistindo Intercine. Não foi um filme bom, mas era o que tinha a fazer para economizar pro sábado. Hoje era dia de sair e arranjar alguém.
Qualquer alguém. Já faz quase uma semana desde Mariana e nenhuma mulher têm respondido aos meus apelos internéticos.
Antes de ver o filme tinha mandado uma série de mensagens aleatórias para todos os meus contatos. Meu MSN de 200 contatos offlines, todos mulheres estava cheio de presenciar tal fato. Bem, era difícil que não recebessealgod e volta.
Liguei o pc, enquanto comia uma tigela amolecida de sucrilhos, gotejando leite na mesa. Bingo. Morena_linda38. Não lembro a mensagem que mandei para ela, mas ela dizia: hahahaha, você é o maior!
O maior, e nem me conhecia por inteiro. É isso aí, mulheres gostam de exagerar e puxar o saco, sem ao menos conhecer. Trinta e oito? Deve ser uma tia desesperada.
Mas olhei a foto. tinha um rosto bonito. Provavelmente de uns 10 anos atrás, mas um rosto é uma das poucas coisas que podem fazer ou destruir o charme de uma mulher. E estava online.
Falei com ela com gentileza, como me é pertinente nesses casos. Conversamos um pouco sobre trabalhos, vida pessoal, e por fim, restaurantes. Mas ela preferia algo mais solto, como uma boite.
Lindo. Maravilha mesmo. Um lugar escuro e sem comida, e geralmente esses lugares são caros e tocam músicas insuportáveis. Mas as garotas usam roupas mínimas então creio que não será de todo mau.
Saias curtas. Que maravilha. Ela poderia ter sugerido um baile funk. Seria mais rápido, talvez. Eu iria mais cedo, de qualquer jeito. Ficar um pouco no bar.
Tudo combinado, pus minha camisa de boite, a laranja de botão, tinha até tomado banho. Passei perfume. Essa noite, errar não era opção. Mas logo me arrependi quando senti o cheiro do frasco se misturar ao do desodorante aplicado com displiscência.
Bom, ia ser assim mesmo. Na pista, com os suores, iria passar, ou tornar-se pior. Não iria trocar mais de camisa, de jeito algum. Peguei duas rodelas de limão e fui passando debaixo do braço. Depois que saiu o cheiro, passei um pouco de água e sabonete, e estava pronto.
Saí do apartamento e me dirigi à padaria na frente do prédio. Tomei uma tubaína e um misto quente, para não passar fome na boite e, além do mais, eu sei como eu fico quando bebo de estômago vazio.
Tubaína de guaraná, mas parecia de tutti frutti. Bebi rapidamente e saí correndo quando avistei meu ônibus vindo. Sempre pago antes para não correr o risco de perdê-lo. Um ônibus perdido significa uma hora de espera, onde moro. Subi, apressado, e sentei-me no fundo, esfregando as mãos pela noite que estava por vir.
Desci na Rua Tabatinga. Ficava a duas quadras da boite onde encontraria a morena. O nome dela, ela disse, era Cíntia. Nome de puta, mas achei melhor não comentar.
Cheguei antes do combinado e pedi uma cerveja ao barman. Sentei-me ali mesmo no bar e podia ver as jovens "causando" e "fritando" na "baladinha". Senti uma ereção a caminho.
Apoiei o copo frio nas calças e isso surtiu o efeito desejado. Consegui tomar umas duas cervejas antes de ver a moça chegar. Saia curtíssima, vermelha, blusa prateada e de costas nuas. Espalhafatosa, ainda mais para a idade. Devia estar desesperada.
Ela foi chegando perto e eu percebi porque a foto era antiga: músculos por toda a parte, até nas bochechas. Não sabia mais o que fazer. Eu estava atrás de uma mulher, e não de um fisiculturista.
Ela era magra, está bem. Mas toda musculosa, e aquela roupa que não cobria nada começaram a me dar arrepios. Cumprimentei-a e fui educado, muito mais do que o de costume porque veja bem, ela era bem mais forte do que eu. Eu podia facilmente perder um dente.
Mas perdi a noite. Disse que ia ao banheiro e me mandei dali o mais rápido possível. No caminho, esbarrei numa menina, também morena, magra e de boca irresistivelmente carnuda. Olhou-me provocando, me chamou de tio, e me empurrou contra a parede.
E quem sou eu pra resistir a um ímpeto desses? De qualquer forma, eu estava me sentindo estranhamente passivo, aquela noite, então apenas deixei que ela fizesse de mim o que bem entendesse. Não seria uma noite perdida, afinal.
Ela me apertava com força, como se fosse um homem. Essas jovens de hoje, vão muito à academia, pensei comigo mesmo. Mas estava bom, gostava um pouco dessa coisa masoquista, de ser controlado, ainda mais por uma moça que deveria ter metade da minha idade.
E bonita, ainda por cima.
Vamos sair daqui?
Ela sugeriu, eu acatei. E acatei feliz, aquele não era lugar pra gente da minha idade. Fomos pra rua e o ar gelado nos deu uma bofetada na cara. Fomos nos desenrolando embolados pela rua até que senti uma mão sobre meu ombro.
- Posso ver as carteiras de identidade de vocês? - chegou intimidando um policial mal-encarado. A menina era quase do meu tamanho, imaginei que deveria ter seus vinte anos, e não entendi direito a desconfiança do policial. Estava calmo. O mesmo parecia não acontecer com minha companheira: suava muito e estava com olhos alterados. Entregamos-lhe as carteiras.
Ela tinha dezesseis anos. DEZESSEIS! Meu deus, eu tinha sido pego em flagrante com um filhote de mulher. Naquele momento, só conseguia pensar numa coisa: me fodi. O sujeito soube lidar bem com a situação: me deu um chute nas bolas e me enfiou na viatura. A menina, ele deixou lá, no meio duma avenida escura às 3 da matina.
Veio fazendo piadinhas sobre a vida na cadeia, sobre os estupradores, sobre limpar o chão com uma bola de ferro presa aos pés com uma corrente. Minhas bolas estavam doendo muito, aho que não serviriam mais por uns dois anos. Minha noite forapor água abaixo.
Na delegacia, tentei me explicar como pude. Não sabia da idade dela (isso era verdade), ela parecia mais velha (também verdade), nem cheguei a fazer nada mais do que dar uns amassos com a menina (ainda verdade) e nem ia fazer mais que isso (bingo!). Eles não tinham razões pra duvidar de mim, mas, porra, eu tinha sido pego em flagrante.
- Essa noite, tu vai passar no xadrez. Pra aprender a tomar cuidado com quem você sai bolinando por aí.
Nhéén, cléc. E lá estava eu numa cela diminuta, suja e mal-cheirosa. Se tivesse um pc em vez de um enorme turco peludo, ia ser igualzinha ao meu apartamento.
O turco parecia um daqueles carrascos gordos da Idade Média. Quando entrei estava ajeitando suas bolas dentro da cueca ex-branca que vestia, acompanhada de uma camiseta azul, que deixava nus os pêlos em seus sovacos, no peito e nas costas. Usava um cavanhaque que ressaltava seu nariz adunco e seu olhar doentio.
- Boa noite, doçura, sou Agamenon...
Quase imediatamente, o suor frio desceu pelas minhas costas, empapando minha camisa e inutilizando o efeito das rodelas de limão, que no momento pareciam longínquas como nunca. Ia ter que passar a noite com aquela criatura, e só tinha um beliche no lugar. Tomei coragem e sentei do lado dele. Talvez Agamenon fosse um cara legal, porquê não? Talvez ele estivesse preso por não pagar uma multa de trânsito ou por qualquer outra coisa diretamente oposta ao estupro de homens com camisas laranjas.
Agamenon levantou o colchão e me sugeriu uns cigarros de palha. Aceitei um, e ele pegou outro. Começamos a conversar, livremente. Ele disse que ainda não tínhamos nos cumprimentado, e me estendeu a mão. Apertei-a e ele não quis mais largar a minha mão. Com um dedo tentou alisá-la, e eu rapidamente usei de força para tirar minha mão da dele.
A situação tava começando a pesar pro meu lado. E eu estava cansado tão cansado, só queria que a manhã chegasse logo. Deitei encolhido no beliche, com a bunda encostada na parede, só por precaução. E fiquei torcendo para o turco não ser lá muito fã de dormir de conchinha.
O cansaço me fez dormir. Um dormir muito ruim e precavido, mas ainda assim, um sono. Rápido. Uns trinta minutos depois, sinto uma mão num local indevido. Era Agamenon. Levantei-me num sobressalto e levei uma queda do beliche, de costas. Fingi que não doeu, me pus de pé e fiz um escândalo, gritando pelos guardas, enquanto Agamenon corria atrás de mim como uma fera.
Ele me pegou. Senti o cavanhaque áspero roçando na minha nuca, e uma porção de outras coisas que preferia não sentir. Gritei, gritei a valer de verdade, até que os guardas apareceram e decidiram que ser violado por um turco que cheirava a coalhada azeda era uma pena maior do que eu merecia, e de qualquer forma já era quase de manhã, então eles concordaram em me soltar. Para tristeza de Agamenon, que ainda ficou atirando beijos pra mim através das barras de ferro. Novo acesso de suores frios.
Me veio na cabeça uma música brega que citava seu nome, ecoando, Agamenon, Agamenon. Que triste. Quase cinco da manhã e estava ali, no meio da rua, em frente a uma delegacia num bairro fétido. Talvez fosse melhor ficar por ali e esperar o dia amanhecer para voltar.
Sentei-me na calçada. Em uns dez minutos um veículo com as luzes muito fortes apareceu na esquina, dobrando velozmente em direção à parede da delegacia. A jamanta estraçalhou a recepção e uns cinco homens desceram com armas de grosso calibre. Um deles veio até mim, gritando para eu deitar no chão. Obedeci, e fiquei com seu pé em minha cabeça. Logo os outros saíram da delegacia, acompanhados de Agamenon. Seus olhos castanhos me encaram e brilharam. Ele ordenou que me trouxessem para perto dele e encerrou tudo com uma piscadela. Estava em poder de Agamenon, o conquistador.
terça-feira, 20 de março de 2007
Micro-conto
- Poxa, que vontade de comer uma coxinha de aipim. Mas eu nem tenho dinheiro.
- Nem eu, e tou morrendo de vontade. Aliás, eu tenho, sim.
- Ah, eu também tenho!
E os avarentos rumaram em direção à lanchonete mais próxima.
- Nem eu, e tou morrendo de vontade. Aliás, eu tenho, sim.
- Ah, eu também tenho!
E os avarentos rumaram em direção à lanchonete mais próxima.
quinta-feira, 15 de março de 2007
Tchau, Tô Indo, Não Vou
em parceria com Aline, a Chinaski ao contrário.
Desceu do ônibus e logo acendeu um cigarro. Seu agasalho não dava conta de aquecer-lhe o tórax o suficiente. A fumaça que soltou pela boca misturou-se a névoa rala e à poluição cinza do escapamento dos veículos. "No Pólo Sul não seria assim" pensava, a cada passo imaginava um branco diferente, mas acabava sendo sempre o mesmo.
Sempre o mesmo. Estava acostumado com isso. Não precisava pensar em muitas coisas ou olhar para muitos lugares para sentir algo comum, trivial. Mas ver brancos tão iguais não lhe trazia uma sensação desconfortável. Era apaziguador.
Paredes limpas, o único lugar impossível de se perder, o único caminho que ele sabia naquela madrugada. Poderia andar mais 50 quarteirões, mas a cidade só tinha 20.
Que seja. Naquela cidade, a distância entre a rodoviária e a casa de seus pais poderia ser considerada grande. Melhor assim, teria de andar mais e demoraria mais a vê-los. Poderia pensar melhor se valeria a pena humilhar-se para conseguir alguns trocados. Se desistisse, não importaria que tivesse de varrer as ruas para voltar. "Minha dignidade vale mais que uns pratos de comida", pensava, tentando dissuadir-se. Mas, quando viu, já estava em frente à casa onde morara por anos.
Sentou na calçada e acendeu mais um cigarro. e depois outro e outro... O céu não mudava de cor, ele não (se) sentia (mais) frio. Levantou e entrou, direto para o quarto, direto para o que chamava de conforto. Abriu todas as gavetas e as esvaziou em sua mochila, não era muito, mas era o suficiente, não era suficiente, mas era convincente.
Algumas roupas rasgadas, outras que nem lhe cabiam. Pelo menos faziam volume. Iria impressioná-los, com certeza. "Ele vai embora de vez!", diriam assustados. Puro engano. Estava mais acuado que um ratinho ileso. Não fora bem sucedido na cidade grande e agora iria fingir. Estava bem, tinha arranjado um emprego num escritório de advocacia. Era isso.
Era isso, dinheiro e menos tempo livre nas mãos, o tipo de conforto que demorou muito tempo para chegar e que ele não largaria tão facilmente como já fez nas milhões de vezes anteriores.
Faria mais um dos melodramas mexicanos quando seus pais o vissem saindo com a mochila. Estava ali para fazer esta confusão e, assim, conseguir conforto financeiro. Conhecia seus pais e sabia que eles acabariam enganados por sua lábia. A sua pose de executivo empregado e sua soberba eram a farsa que poderia montar mais facilmente.
Farsas... É ele sabia que já não agüentaria mais farsas, mas essa era a última. Ou assim ele queria acreditar. Acreditar para tornar real, você sabe como é, e ele já sabia como seriam as 3 horas antes de finalmente sair de casa para sempre.
Ouviu alguns ruídos de panelas sendo retiradas do conforto do armário e das xícaras sendo dispostas à mesa. Sua mãe já havia acordado. Só faltava esperar seu pai levantar-se do sono intranqüilo, que o perseguia desde a briga que fez seu filho deixar a casa escura.
Deitou-se na cama, olhou o céu pela janela, cruzou as mãos na altura do peito, sentia aquela dor, no lugar que supostamente tinha um coração, fazia duas semanas. Às vezes pensava que iria morrer, às vezes passava, às vezes acabava dormindo e acordava cansado demais para qualquer outra coisa.
Era uma dor perseguidora. Começara uma semana depois de chegar aos trancos e barrancos no fim de linha do trem que levava à capital. Ali perto mesmo arrumou uma casa destruída e tentava um emprego. Recusara-se a pensar que a dor era pelo fato de estar, de fato, completamente abandonado, por si mesmo excluído.
Ouviu vozes de seus pais conversando e logo foi em direção à eles, tinha pensado em passar pela porta de saída/entrada direto, mas resolveu esquecer a dor e a covardia. Quase 3 horas de diálogos vazios com seus pais e um “Adeus!” antes de partir.
Conversaram horas à fio e horas à farsa. Sua mãe pedia que voltasse para casa, do jeito mais calmamente interiorano que existia. Desferia os mais sutis golpes verbais. A dor diminuía. Ele sabia que não poderia resistir. Mas continuava com a mentira.
Ao passar pela porta já não lembrava nem da metade de toda a conversa. Foi caminhando até a rodoviária, e depois pegou um ônibus para o aeroporto mais próximo, não que ele fosse sair de lá agora, mas ele queria ver aviões partirem o dia inteiro.
Um... Dois... Aquilo lhe dava paz. A segurança com a qual eles partiam, deixando para trás um rastro congelado de saudades. A segurança que nunca tivera ao sair de casa. A que sempre o acompanhara quando pensava fazer alguma bobagem irremediável.
Acendeu um cigarro e não conseguia mais pensar em nada. E até nem sentiu quando queimou a mão quando o cigarro estava acabando. Não sentiu o tempo passar. Só percebeu quando a ponta de cigarro transformou-se numa mini-lanterna sem serventia. Era noite e estava ali, sentado debaixo de uma árvore, colado à grade que impedia o acesso à pista de vôo, vendo, uma a uma, as partidas dos aviões.
Desceu do ônibus e logo acendeu um cigarro. Seu agasalho não dava conta de aquecer-lhe o tórax o suficiente. A fumaça que soltou pela boca misturou-se a névoa rala e à poluição cinza do escapamento dos veículos. "No Pólo Sul não seria assim" pensava, a cada passo imaginava um branco diferente, mas acabava sendo sempre o mesmo.
Sempre o mesmo. Estava acostumado com isso. Não precisava pensar em muitas coisas ou olhar para muitos lugares para sentir algo comum, trivial. Mas ver brancos tão iguais não lhe trazia uma sensação desconfortável. Era apaziguador.
Paredes limpas, o único lugar impossível de se perder, o único caminho que ele sabia naquela madrugada. Poderia andar mais 50 quarteirões, mas a cidade só tinha 20.
Que seja. Naquela cidade, a distância entre a rodoviária e a casa de seus pais poderia ser considerada grande. Melhor assim, teria de andar mais e demoraria mais a vê-los. Poderia pensar melhor se valeria a pena humilhar-se para conseguir alguns trocados. Se desistisse, não importaria que tivesse de varrer as ruas para voltar. "Minha dignidade vale mais que uns pratos de comida", pensava, tentando dissuadir-se. Mas, quando viu, já estava em frente à casa onde morara por anos.
Sentou na calçada e acendeu mais um cigarro. e depois outro e outro... O céu não mudava de cor, ele não (se) sentia (mais) frio. Levantou e entrou, direto para o quarto, direto para o que chamava de conforto. Abriu todas as gavetas e as esvaziou em sua mochila, não era muito, mas era o suficiente, não era suficiente, mas era convincente.
Algumas roupas rasgadas, outras que nem lhe cabiam. Pelo menos faziam volume. Iria impressioná-los, com certeza. "Ele vai embora de vez!", diriam assustados. Puro engano. Estava mais acuado que um ratinho ileso. Não fora bem sucedido na cidade grande e agora iria fingir. Estava bem, tinha arranjado um emprego num escritório de advocacia. Era isso.
Era isso, dinheiro e menos tempo livre nas mãos, o tipo de conforto que demorou muito tempo para chegar e que ele não largaria tão facilmente como já fez nas milhões de vezes anteriores.
Faria mais um dos melodramas mexicanos quando seus pais o vissem saindo com a mochila. Estava ali para fazer esta confusão e, assim, conseguir conforto financeiro. Conhecia seus pais e sabia que eles acabariam enganados por sua lábia. A sua pose de executivo empregado e sua soberba eram a farsa que poderia montar mais facilmente.
Farsas... É ele sabia que já não agüentaria mais farsas, mas essa era a última. Ou assim ele queria acreditar. Acreditar para tornar real, você sabe como é, e ele já sabia como seriam as 3 horas antes de finalmente sair de casa para sempre.
Ouviu alguns ruídos de panelas sendo retiradas do conforto do armário e das xícaras sendo dispostas à mesa. Sua mãe já havia acordado. Só faltava esperar seu pai levantar-se do sono intranqüilo, que o perseguia desde a briga que fez seu filho deixar a casa escura.
Deitou-se na cama, olhou o céu pela janela, cruzou as mãos na altura do peito, sentia aquela dor, no lugar que supostamente tinha um coração, fazia duas semanas. Às vezes pensava que iria morrer, às vezes passava, às vezes acabava dormindo e acordava cansado demais para qualquer outra coisa.
Era uma dor perseguidora. Começara uma semana depois de chegar aos trancos e barrancos no fim de linha do trem que levava à capital. Ali perto mesmo arrumou uma casa destruída e tentava um emprego. Recusara-se a pensar que a dor era pelo fato de estar, de fato, completamente abandonado, por si mesmo excluído.
Ouviu vozes de seus pais conversando e logo foi em direção à eles, tinha pensado em passar pela porta de saída/entrada direto, mas resolveu esquecer a dor e a covardia. Quase 3 horas de diálogos vazios com seus pais e um “Adeus!” antes de partir.
Conversaram horas à fio e horas à farsa. Sua mãe pedia que voltasse para casa, do jeito mais calmamente interiorano que existia. Desferia os mais sutis golpes verbais. A dor diminuía. Ele sabia que não poderia resistir. Mas continuava com a mentira.
Ao passar pela porta já não lembrava nem da metade de toda a conversa. Foi caminhando até a rodoviária, e depois pegou um ônibus para o aeroporto mais próximo, não que ele fosse sair de lá agora, mas ele queria ver aviões partirem o dia inteiro.
Um... Dois... Aquilo lhe dava paz. A segurança com a qual eles partiam, deixando para trás um rastro congelado de saudades. A segurança que nunca tivera ao sair de casa. A que sempre o acompanhara quando pensava fazer alguma bobagem irremediável.
Acendeu um cigarro e não conseguia mais pensar em nada. E até nem sentiu quando queimou a mão quando o cigarro estava acabando. Não sentiu o tempo passar. Só percebeu quando a ponta de cigarro transformou-se numa mini-lanterna sem serventia. Era noite e estava ali, sentado debaixo de uma árvore, colado à grade que impedia o acesso à pista de vôo, vendo, uma a uma, as partidas dos aviões.
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007
Maquiagem pesada
Lembrava sempre de que na época do carnaval seu coração ficava um pouquinho mais aliviado. Sempre gostou do clima que se instalava nas ruazinhas de sua cidade entre os meses de fevereiro e março. Só durante os dias da festa – e também nas festinhas dos amigos, mas não era a mesma coisa - é que poderia vestir-se da maneira que bem entendesse sem que se importassem com ela. Gostava de se vestir de pirata, ou apenas pôr uma máscara vermelha cheia de purpurina, com uma roupa velha qualquer que usava bastante. Era um daqueles casos - que não parecem, mas são bastante comuns – de pessoas que se fantasiam para serem si mesmas, pelo menos por um dia. E era a primeira vez que contava isso para alguém.
Janaína sempre fora uma garota que não se dava bem com as outras meninas da vizinhança cheia de árvores bem verdes e florzinhas brancas. Um patinho feio. Era tida assim pelas pequenas vaidosas que se entretinham com batons carmesins e bonecas novas, com cabelo loiro bem penteado. Restava-lhe os meninos. Mas na idade em que estavam, uma menina não poderia ser bem vista pelos garotos. Quando tentou se aproximar do clubinho deles foi enxotada com um “Fora, feiosa!”, em uníssono, extremamente veemente.
Queria ter companhia pra brincar, porém era muito diferente das outras crianças, e isso lhe proporcionou conhecer mais um pouquinho de si. Descobriu que era capaz de enganar pessoas com certa facilidade. Teve uma idéia para poder brincar confortavelmente nos dias de sua infância. Utilizou-se de seu pequeno ardil de criança. Tinha de se adequar ao gosto da vizinhança. Pelo menos por enquanto. Então Janaína, de menina que não usava maquiagem nem pra ir à casa da vovó, passou a usar maquiagem todo dia. Mas só em alguns dias por prazer: no carnaval.
E assim se passaram alguns anos na vida daquela menina, que continuava quieta e evasiva na maioria das vezes. Quando era menor saía para brincar e logo que se acabavam os folguedos, voltava para casa, caminhando pelo bulevar, brincando com seu bilboquê. Era assim por todos os dias. Adquiriu hábito de ficar sozinha em casa, escutando os discos de marchinhas que pegava na casa dos avós. Depois, foi tomando gosto por Cartola, Pixinguinha e pelos sambinhas do Chico Buarque.
Crescida, não se utilizava dos mesmos truques de antes. Agora a farsa chamava-se estudar. Poderia ser amiga dos mais estudiosos da sala. Era mais legal. Não precisava mais fingir que gostava de todas aquelas casinhas de bonecas. Ocupava-se agora com alguma coisa mais útil que as conversas que a maior parte das meninas – as mesmas que a evitavam na infância – tinham sobre os melhores beijos da escola. Nunca achou que precisava amar alguém. Pelo menos não ali, naquela cidade – e mal sabia ela que seus longos cabelos negros serviam para distrair um de seus colegas mais próximos, o Eduardo. Por enquanto bastava-lhe a semana do pequeno carnaval da cidade.
Pensava assim, até o dia em que viu na televisão algumas imagens do carnaval de Veneza. Entusiasmou-se com a idéia de baile dos mascarados, sorriu com as gôndolas lotadas de pessoas – e enfeites - e lhe custou não se sentir colombina entre pierrot e arlequim. Era para lá que ela iria, assim que pudesse, estava decidido.
Sua devoção pelas máscaras venezianas fez que ela prestasse vestibular para artes plásticas. Passou pro primeiro semestre, então logo teria de se mudar para a capital, único lugar mais próximo onde tinha o curso. Eduardo a acompanharia para a capital, passou em ciências econômicas. Daí para frente, só eles dois, nada mais dos outros três amigos que lhes faziam companhia nos intervalos entre as aulas. O rapaz comemorara timidamente – para que não percebessem - a possibilidade de ficar ainda mais próximo de sua paixão. E em um lugar em que não se sentiria reprimido pelos olhares dos que o conheciam como um “nerd bunda-mole”. Estava radiante, mas quem precisava saber?
Passavam-se os meses e nada acontecia entre eles. Eduardo ainda não havia se acostumado com a cidade e não percebia progressos na relação deles. Mas para Janaína acontecera uma mudança. Deixara a misantropia de lado e não mentia mais para os outros para sair. Gostava mesmo de Eduardo e de outros amigos de curso. Sentia prazer em conversar com eles, em ir à cafeteria nos fins de tardes tomar uma rodada de capuccino com – agora sim – seus amigos.
E lá estava Eduardo, ouvindo-a contar de sua infância, dos tempos em que ainda não a conhecia. Ouvia atentamente cada palavra que saía de sua boca, tomando cuidado para não se distrair com a beleza da cena que presenciava. Os cabelos de Janaína balançavam tranqüilamente, de acordo com o sopro do vento de fim de tarde no píer onde estavam. Ela seguia contando cada carnaval e cada momento de felicidade que havia passado.
Ele queria dizer que a amava. Abraçá-la e beijá-la. Será que ela aceitaria? Era claro que Eduardo era o mais próximo dela, até mesmo por causa tempos de escola. Ela queria dizer que ia partir logo, que Veneza a esperava, era onde esperava beijar alguém com paixão pela primeira vez. Algum desconhecido com o mesmo amor que ela sentira pelo carnaval. Mas, pensou e desistiu, não sentiu necessidade. Não precisava mais do carnaval como antes. Nunca mais precisou das fantasias para dizer a verdade para ninguém. Mas ainda queria conhecer Veneza, e quem sabe, “conhecer” alguém. Seria seu segredinho. Ficaram por dizer, e nenhum dos dois percebeu que havia algo que o outro queria transmitir. Pouco antes de anoitecer deixaram o local abraçados, como bons amigos. Foram para o apartamento dela. Iam tomar um café, como de costume. Janaína disse que precisava de um banho e pediu que Eduardo a esperasse. Ele assentiu e logo estava sentado no sofá da sala. Viu uma espécie de talão em cima da mesa, bem colorido. Apanhou-no e sobressaltou-se. Era uma passagem para Veneza, junto a uns folhetos que falavam sobre o carnaval de máscaras. Contava sobre como as pessoas faziam qualquer coisa durante a festa e não poderiam descobertas, principalmente nos carnavais da Idade Média. Sentiu em algum lugar de seu coração bobo e inseguroque ia perdê-la. Foi tomado de um desespero infantil e desistiu de Janaína. Pôs os papéis onde achara e esperou que ela chegasse. Sorveu rapidamente o café numa manifestação genuína de desconforto e deixou o apartamento sem muitas palavras. Passou as férias de semestre vivendo profundo desalento em sua cidade natal, enquanto Janaína passava o carnaval em Veneza, sem baile e sem máscara. Fez tanto frio e foi tão desconfortável como nunca havia sido naquela parte do ano. Sua visita a Veneza transformara-se numa visita ao melhor hotel da cidade.
Só se reencontraram na volta das férias. E tudo continuava da mesma forma, externamente. Mas, dentro de cada um deles, tudo se configurara diferente. Um estava amargurado, tentando projetar uma boa imagem, apresentável. A outra, começando a descobrir certos prazeres da vida simples e a se apaixonar pela primeira pessoa que a viu sem maquiagem, mas sem palavras para dizer-lhe.
Janaína sempre fora uma garota que não se dava bem com as outras meninas da vizinhança cheia de árvores bem verdes e florzinhas brancas. Um patinho feio. Era tida assim pelas pequenas vaidosas que se entretinham com batons carmesins e bonecas novas, com cabelo loiro bem penteado. Restava-lhe os meninos. Mas na idade em que estavam, uma menina não poderia ser bem vista pelos garotos. Quando tentou se aproximar do clubinho deles foi enxotada com um “Fora, feiosa!”, em uníssono, extremamente veemente.
Queria ter companhia pra brincar, porém era muito diferente das outras crianças, e isso lhe proporcionou conhecer mais um pouquinho de si. Descobriu que era capaz de enganar pessoas com certa facilidade. Teve uma idéia para poder brincar confortavelmente nos dias de sua infância. Utilizou-se de seu pequeno ardil de criança. Tinha de se adequar ao gosto da vizinhança. Pelo menos por enquanto. Então Janaína, de menina que não usava maquiagem nem pra ir à casa da vovó, passou a usar maquiagem todo dia. Mas só em alguns dias por prazer: no carnaval.
E assim se passaram alguns anos na vida daquela menina, que continuava quieta e evasiva na maioria das vezes. Quando era menor saía para brincar e logo que se acabavam os folguedos, voltava para casa, caminhando pelo bulevar, brincando com seu bilboquê. Era assim por todos os dias. Adquiriu hábito de ficar sozinha em casa, escutando os discos de marchinhas que pegava na casa dos avós. Depois, foi tomando gosto por Cartola, Pixinguinha e pelos sambinhas do Chico Buarque.
Crescida, não se utilizava dos mesmos truques de antes. Agora a farsa chamava-se estudar. Poderia ser amiga dos mais estudiosos da sala. Era mais legal. Não precisava mais fingir que gostava de todas aquelas casinhas de bonecas. Ocupava-se agora com alguma coisa mais útil que as conversas que a maior parte das meninas – as mesmas que a evitavam na infância – tinham sobre os melhores beijos da escola. Nunca achou que precisava amar alguém. Pelo menos não ali, naquela cidade – e mal sabia ela que seus longos cabelos negros serviam para distrair um de seus colegas mais próximos, o Eduardo. Por enquanto bastava-lhe a semana do pequeno carnaval da cidade.
Pensava assim, até o dia em que viu na televisão algumas imagens do carnaval de Veneza. Entusiasmou-se com a idéia de baile dos mascarados, sorriu com as gôndolas lotadas de pessoas – e enfeites - e lhe custou não se sentir colombina entre pierrot e arlequim. Era para lá que ela iria, assim que pudesse, estava decidido.
Sua devoção pelas máscaras venezianas fez que ela prestasse vestibular para artes plásticas. Passou pro primeiro semestre, então logo teria de se mudar para a capital, único lugar mais próximo onde tinha o curso. Eduardo a acompanharia para a capital, passou em ciências econômicas. Daí para frente, só eles dois, nada mais dos outros três amigos que lhes faziam companhia nos intervalos entre as aulas. O rapaz comemorara timidamente – para que não percebessem - a possibilidade de ficar ainda mais próximo de sua paixão. E em um lugar em que não se sentiria reprimido pelos olhares dos que o conheciam como um “nerd bunda-mole”. Estava radiante, mas quem precisava saber?
Passavam-se os meses e nada acontecia entre eles. Eduardo ainda não havia se acostumado com a cidade e não percebia progressos na relação deles. Mas para Janaína acontecera uma mudança. Deixara a misantropia de lado e não mentia mais para os outros para sair. Gostava mesmo de Eduardo e de outros amigos de curso. Sentia prazer em conversar com eles, em ir à cafeteria nos fins de tardes tomar uma rodada de capuccino com – agora sim – seus amigos.
E lá estava Eduardo, ouvindo-a contar de sua infância, dos tempos em que ainda não a conhecia. Ouvia atentamente cada palavra que saía de sua boca, tomando cuidado para não se distrair com a beleza da cena que presenciava. Os cabelos de Janaína balançavam tranqüilamente, de acordo com o sopro do vento de fim de tarde no píer onde estavam. Ela seguia contando cada carnaval e cada momento de felicidade que havia passado.
Ele queria dizer que a amava. Abraçá-la e beijá-la. Será que ela aceitaria? Era claro que Eduardo era o mais próximo dela, até mesmo por causa tempos de escola. Ela queria dizer que ia partir logo, que Veneza a esperava, era onde esperava beijar alguém com paixão pela primeira vez. Algum desconhecido com o mesmo amor que ela sentira pelo carnaval. Mas, pensou e desistiu, não sentiu necessidade. Não precisava mais do carnaval como antes. Nunca mais precisou das fantasias para dizer a verdade para ninguém. Mas ainda queria conhecer Veneza, e quem sabe, “conhecer” alguém. Seria seu segredinho. Ficaram por dizer, e nenhum dos dois percebeu que havia algo que o outro queria transmitir. Pouco antes de anoitecer deixaram o local abraçados, como bons amigos. Foram para o apartamento dela. Iam tomar um café, como de costume. Janaína disse que precisava de um banho e pediu que Eduardo a esperasse. Ele assentiu e logo estava sentado no sofá da sala. Viu uma espécie de talão em cima da mesa, bem colorido. Apanhou-no e sobressaltou-se. Era uma passagem para Veneza, junto a uns folhetos que falavam sobre o carnaval de máscaras. Contava sobre como as pessoas faziam qualquer coisa durante a festa e não poderiam descobertas, principalmente nos carnavais da Idade Média. Sentiu em algum lugar de seu coração bobo e inseguroque ia perdê-la. Foi tomado de um desespero infantil e desistiu de Janaína. Pôs os papéis onde achara e esperou que ela chegasse. Sorveu rapidamente o café numa manifestação genuína de desconforto e deixou o apartamento sem muitas palavras. Passou as férias de semestre vivendo profundo desalento em sua cidade natal, enquanto Janaína passava o carnaval em Veneza, sem baile e sem máscara. Fez tanto frio e foi tão desconfortável como nunca havia sido naquela parte do ano. Sua visita a Veneza transformara-se numa visita ao melhor hotel da cidade.
Só se reencontraram na volta das férias. E tudo continuava da mesma forma, externamente. Mas, dentro de cada um deles, tudo se configurara diferente. Um estava amargurado, tentando projetar uma boa imagem, apresentável. A outra, começando a descobrir certos prazeres da vida simples e a se apaixonar pela primeira pessoa que a viu sem maquiagem, mas sem palavras para dizer-lhe.
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
Joseval ataca de novo
Com desgosto, Joseval Siqueira abriu a carteira e entregou pela janela trinta e cinco reais ao taxista. O motorista agradeceu e arrancou em seu carro amarelo em busca de mais um passageiro. Deixou Joseval plantado no meio da rua, limpando a poeira - levantada pelos pneus de seu táxi - acumulada em seu paletó surrado. Assim que terminou de bater as mãos em seu tórax, caminhou em direção à portaria do prédio antigo que o abrigava desde que se mudara da zona leste. Seu interior era escuro e o mofo revestia as paredes. Os fungos proliferavam-se graças à umidade excessiva do cimento cheio de infilitrações. Não podia se queixar, era o melhor que seu dinheiro poderia pagar.
Subiu as escadas até seu quarto no quinto andar. A primeira coisa que fez ao entrar no cômodo foi ligar seu computador. Mesmo com seu salário de semi-desempregado, mantinha o vício de utilizar a Internet. Seu alvo eram os sites de encontros pessoais. Acessava usando um daqueles provedores que pagam ao usuário. Uma vez conectado, começava a passear por orkut, MySpace, Multiply, FindADate e tudo o que pudesse conectá-lo a outras mulheres, que não a desgostosa Silvinha. E, claro, com o MSN aberto.
Nenhuma mensagem nova. - Estou fodido mesmo - balbuciou em um grunhido difícil de entender. Ainda vadiou por uns momentos, pensando no fracasso da noite com Silvinha. Resolveu tocar uma para uma dessas celebridades de quinta categoria de seu tempo sem glamour.
Um pouco cansado do exercício no banheiro, pegou na geladeira uma coxa abandonada de frango e foi se despindo. Deixou o osso sobre o rádio relógio e foi dormir.
*****
No dia seguinte, fiquei pensando na frustração da noite anterior. só havia aumentado depois da maldita masturbação. que jeito horrível de se acabar uma noite: pensando em fazer sexo com uma big brother. tinha de arranjar alguma pessoa hoje.
Entrei no dating service. Nada ainda. Então tomei uma chuveirada pra tirar o ranço de ontem. Vesti uma cueca limpa. E comecei a procurar uma garota com um perfil menos...Silvinha.
De fato, não consegui. o tipo de gente que usa estes sites é bem joseval & silvinha, pares perfeitos. então, vamos lá. abordei uma tal de mariana ruiva 29. estava online e provavelmente receberia resposta logo.
Tiro e queda. Em uns dois minutos tinha uma mensagem em caixa. " Nossos perfis combinam - odeio quando elas usam esse sorrisinho-pontuação - Também adoro macarrão. Vamos numa cantina italiana?" ao menos ela era direta. Sem complicação.
Vi suas fotos. não era bonita. mas também não era uma silvinha. marcamos às 20 horas e eu contava meu dinheiro que seria gasto. morando sozinho conseguia gastar mais com esse tipo de divertimento, mesmo recebendo pouco.
Dava pra um talharim e um refrigerante. Quem sabe até uma torta holandesa. Confirmei com a rapariga, seja o que deus quiser e tomara que ela escolha uma cantina furreca.
Era um local agradável. E o melhor, barato. Às oito horas eu já estava esperando e cinco minutos depois ela chegou. Pontual, pelo menos. Levantei-me e cumprimentei-a educadamente, como Al Pacino faria. Ela deu um sorriso largo e sentou-se.
Com as pernas ligeiramente abertas. Como Al Pacino faria. Sim, temos muito em comum. Marianaruiva29. Já não era ruiva. Já não devia ter 29 também.
Fui direto.
- Ruiva? não vejo fios que possam dizer isso. Gosta de pintar os cabelos?
- Oh, é verdade. Aquilo no site é meio desatualizado. Na verdade até ajuda. Atrai muitos homens firmes assim como você.
- Uau. Começou elogiando. Me senti como Al Pacino. Agradeci e logo a conversa fluiu agradavelmente, sobre como é ruim levar bolos e sobre toda aquela baboseira de internet. Esperávamos despreocupados pelo talharim.
Chegaram os pratos. Enormes. Novelos e novelos de massa submersa em um molho vermelho e grosso. Vinho tinto. Pão de alho, meu deus, Pão de alho! Estavamos indo muito bem. Ora a quem estou enganando. O que não estaria muito bem com uma cesta cheinha de pão de alho?
Cheguei à conclusão de que o preço cobrado era módico. O prato valia muito mais. Nossa, que local excelente. E mais excelente ainda era o modo que Mariana tratava a comida. Comia devagar, e quanto mais comia, mais abria as pernas, roçando em mim e me olhando de maneira tarada.
Precisva agir como Al Pacino. - Vamos para o meu apartamento. Agora. - Ela gostou da idéia, e sorriu depois de um gole de vinho.
Pedi a conta. Me ofereci pra pagar. Me sentia generoso. É o tipo de sentimento que me pega desprevenido. Ela insistiu em rachar. Ah, uma feminista. Os machistas podem dizer o que quiserem, mas nesse ponto as feministas são demais. Me pegou pelo braço, disse Vamos. Segura. Implacável. Incrível como ao longo da noite ela foi ficando mais bonita. Essa moça, ela é como Al Pacino.
No caminho fui dizendo que minha casa não era legal, que era meio escura e que ela não poderia gostar. Ela insistiu querendo conhecê-la e eu não tive saída. Tinha que ser infalível. Fazê-la não perceber as imperfeições do local. Tarefa difícil. Mas era minha única chance. Vamos lá.
Estávamos no elevador. tudo bem, tudo bem. Tem espelho, ela ficou ajeitando o cabelo, tirando uma salsinha do dente, nem reparou nos palavrões escritos no painel a ponta de chave. passei o braço ao redor dela antes de abrir a porta do apartamento. Mais que um gesto intuitivo, era estratégico. Tentei encobrir a visão dos aposentos com meu corpo.
No fim, não consegui esconder o apartamento. Ela fez que não ligava e foi logo tirando o casaco que cobria seus ombros. Senti que dessa vez a coisa ia sair bem. Abri a janela e sentei-me a cama, tirando minha gravata.
- Não, Joseval. Deixa que eu tiro. - Ela sentou-se ao meu lado na cama e senti-me conquistador como Al Pacino. Deixei que ela atirasse a gravata no chão. Sexy. Puxa, você não tem um abajur? Ela perguntou. Não tinha. Liguei o computador. Pronto, baby. A tela ilumina. Improvisação nas horas dificeis. Como Mc Gyver. Não é Al Pacino, mas ao menos é um cara famoso.
Mariana olhou meio assustada pro computador. Deve ter pensado o quão conquistador barato eu era. Virou-se bruscamente para mim, e acabou chocando seu braço contra minha testa. Seu anel acabou arrancando um pedacinho de pele do supercílio e começoui a sangrar. Ela ficou desesperada, pedindo desculpas e procurando algum algodão, um remédio. Para meu lamento, foi procurar na cômoda.
Ao abrir a primeira gaveta, ao passo que eu implorava para que ela não abrisse, ela achou, desposados de qualquer jeito, o relógio velho e o ossinho da coxa de frango. Gritou, pulando para trás.
Virou pra mim, os olhos brilhando. Joseval, que porra é essa? Ossinho de frango, meu bem. Só um ossinho de frango. Tirei da mão dela, carinhoso, joguei no lixo do banheiro. Todo gentileza. Um gentleman. Um superhero. Ia, heroicamente, salvar o clima. Busquei um vinho pra nós dois. Pus uma música. A tela do pc colaborava, fornecendo uma meia-luz digna de cabaré.
E eu bem queria que ela fosse realmente uma puta, como tinha demonstrado no restaurante, abrindo suas pernas e roçando nervosamente em minha canela. Mais uma vez ela relevou as más condições do meu doce e mofado lar. Talvez estivesse precisando de sexo tanto quanto eu e isso era bom para nós dois. Começamos a nos agarrar, e sem romantismo, ela foi logo descendo seu vestido, revelando estar sem soutien e sem calcinha. A noite era, definitivamente, minha.
Por baixo do vestidinho, uns peitos medianos . Não, Al Pacino não teria peitos assim, mas sejamos francos, a essa altura dos acontecimentos pensar no Al Pacino poderia estragar tudo. Então pensei na Loira que dança tango com o Al Pacino, e de fato, Mariana tinha pernas de dançarina de tango e, melhor, volúpia de dançarina de tango. E eu. Que fazer? Eu apalpava como um ceguinho.
E nossa, como ela se movia, lânguida, seus seios bailando tango em minhas mãos, mas, mais embaixo, em meu colo, o encontro de nossas coxas proporcionava um samba que nenhuma mulata da Sapucaí conseguiria dançar. Pelo menos não na avenida.
Eu mestre-sala. Ela, Porta-bandeira. Porta-bandeira, que trocadilho malicioso isso não daria. E agora, olhos fechados, ela já não via o apartamento, as meias sujas, a louça por lavar, a luz neônica que emanava a tela do computador, sequer me via, devia ver Al Pacino, James Bond, quem quer que habitasse seus sonhos molhados, mas eu via tudo, cada contorção, cada suspiro.
Malditos cupins. Decisivos para o fim da minha breve experiência sexual com Mariana. O que eu recebia do meu provedor de internet não fora suficiente para combater a praga que roía o estrado da minha cama. Agora estava eu, nu, ao chão, com meu ferimento no supercílio estancado, e com uma lasca de madeira na perna, observando a lascívia deslizar porta afora com Mariana, enfurecida, ainda se vestindo.
Moça corajosa, é preciso dizer. Sair por aquele bairro, àquela hora amarrando alças em um vestido que, eu bem sabia, não tinha nada por baixo. Não era muito compreensiva com relação aos cupins mas era corajosa. Não fossem os peitos, poderia ser Al Pacino.
Subiu as escadas até seu quarto no quinto andar. A primeira coisa que fez ao entrar no cômodo foi ligar seu computador. Mesmo com seu salário de semi-desempregado, mantinha o vício de utilizar a Internet. Seu alvo eram os sites de encontros pessoais. Acessava usando um daqueles provedores que pagam ao usuário. Uma vez conectado, começava a passear por orkut, MySpace, Multiply, FindADate e tudo o que pudesse conectá-lo a outras mulheres, que não a desgostosa Silvinha. E, claro, com o MSN aberto.
Nenhuma mensagem nova. - Estou fodido mesmo - balbuciou em um grunhido difícil de entender. Ainda vadiou por uns momentos, pensando no fracasso da noite com Silvinha. Resolveu tocar uma para uma dessas celebridades de quinta categoria de seu tempo sem glamour.
Um pouco cansado do exercício no banheiro, pegou na geladeira uma coxa abandonada de frango e foi se despindo. Deixou o osso sobre o rádio relógio e foi dormir.
*****
No dia seguinte, fiquei pensando na frustração da noite anterior. só havia aumentado depois da maldita masturbação. que jeito horrível de se acabar uma noite: pensando em fazer sexo com uma big brother. tinha de arranjar alguma pessoa hoje.
Entrei no dating service. Nada ainda. Então tomei uma chuveirada pra tirar o ranço de ontem. Vesti uma cueca limpa. E comecei a procurar uma garota com um perfil menos...Silvinha.
De fato, não consegui. o tipo de gente que usa estes sites é bem joseval & silvinha, pares perfeitos. então, vamos lá. abordei uma tal de mariana ruiva 29. estava online e provavelmente receberia resposta logo.
Tiro e queda. Em uns dois minutos tinha uma mensagem em caixa. " Nossos perfis combinam - odeio quando elas usam esse sorrisinho-pontuação - Também adoro macarrão. Vamos numa cantina italiana?" ao menos ela era direta. Sem complicação.
Vi suas fotos. não era bonita. mas também não era uma silvinha. marcamos às 20 horas e eu contava meu dinheiro que seria gasto. morando sozinho conseguia gastar mais com esse tipo de divertimento, mesmo recebendo pouco.
Dava pra um talharim e um refrigerante. Quem sabe até uma torta holandesa. Confirmei com a rapariga, seja o que deus quiser e tomara que ela escolha uma cantina furreca.
Era um local agradável. E o melhor, barato. Às oito horas eu já estava esperando e cinco minutos depois ela chegou. Pontual, pelo menos. Levantei-me e cumprimentei-a educadamente, como Al Pacino faria. Ela deu um sorriso largo e sentou-se.
Com as pernas ligeiramente abertas. Como Al Pacino faria. Sim, temos muito em comum. Marianaruiva29. Já não era ruiva. Já não devia ter 29 também.
Fui direto.
- Ruiva? não vejo fios que possam dizer isso. Gosta de pintar os cabelos?
- Oh, é verdade. Aquilo no site é meio desatualizado. Na verdade até ajuda. Atrai muitos homens firmes assim como você.
- Uau. Começou elogiando. Me senti como Al Pacino. Agradeci e logo a conversa fluiu agradavelmente, sobre como é ruim levar bolos e sobre toda aquela baboseira de internet. Esperávamos despreocupados pelo talharim.
Chegaram os pratos. Enormes. Novelos e novelos de massa submersa em um molho vermelho e grosso. Vinho tinto. Pão de alho, meu deus, Pão de alho! Estavamos indo muito bem. Ora a quem estou enganando. O que não estaria muito bem com uma cesta cheinha de pão de alho?
Cheguei à conclusão de que o preço cobrado era módico. O prato valia muito mais. Nossa, que local excelente. E mais excelente ainda era o modo que Mariana tratava a comida. Comia devagar, e quanto mais comia, mais abria as pernas, roçando em mim e me olhando de maneira tarada.
Precisva agir como Al Pacino. - Vamos para o meu apartamento. Agora. - Ela gostou da idéia, e sorriu depois de um gole de vinho.
Pedi a conta. Me ofereci pra pagar. Me sentia generoso. É o tipo de sentimento que me pega desprevenido. Ela insistiu em rachar. Ah, uma feminista. Os machistas podem dizer o que quiserem, mas nesse ponto as feministas são demais. Me pegou pelo braço, disse Vamos. Segura. Implacável. Incrível como ao longo da noite ela foi ficando mais bonita. Essa moça, ela é como Al Pacino.
No caminho fui dizendo que minha casa não era legal, que era meio escura e que ela não poderia gostar. Ela insistiu querendo conhecê-la e eu não tive saída. Tinha que ser infalível. Fazê-la não perceber as imperfeições do local. Tarefa difícil. Mas era minha única chance. Vamos lá.
Estávamos no elevador. tudo bem, tudo bem. Tem espelho, ela ficou ajeitando o cabelo, tirando uma salsinha do dente, nem reparou nos palavrões escritos no painel a ponta de chave. passei o braço ao redor dela antes de abrir a porta do apartamento. Mais que um gesto intuitivo, era estratégico. Tentei encobrir a visão dos aposentos com meu corpo.
No fim, não consegui esconder o apartamento. Ela fez que não ligava e foi logo tirando o casaco que cobria seus ombros. Senti que dessa vez a coisa ia sair bem. Abri a janela e sentei-me a cama, tirando minha gravata.
- Não, Joseval. Deixa que eu tiro. - Ela sentou-se ao meu lado na cama e senti-me conquistador como Al Pacino. Deixei que ela atirasse a gravata no chão. Sexy. Puxa, você não tem um abajur? Ela perguntou. Não tinha. Liguei o computador. Pronto, baby. A tela ilumina. Improvisação nas horas dificeis. Como Mc Gyver. Não é Al Pacino, mas ao menos é um cara famoso.
Mariana olhou meio assustada pro computador. Deve ter pensado o quão conquistador barato eu era. Virou-se bruscamente para mim, e acabou chocando seu braço contra minha testa. Seu anel acabou arrancando um pedacinho de pele do supercílio e começoui a sangrar. Ela ficou desesperada, pedindo desculpas e procurando algum algodão, um remédio. Para meu lamento, foi procurar na cômoda.
Ao abrir a primeira gaveta, ao passo que eu implorava para que ela não abrisse, ela achou, desposados de qualquer jeito, o relógio velho e o ossinho da coxa de frango. Gritou, pulando para trás.
Virou pra mim, os olhos brilhando. Joseval, que porra é essa? Ossinho de frango, meu bem. Só um ossinho de frango. Tirei da mão dela, carinhoso, joguei no lixo do banheiro. Todo gentileza. Um gentleman. Um superhero. Ia, heroicamente, salvar o clima. Busquei um vinho pra nós dois. Pus uma música. A tela do pc colaborava, fornecendo uma meia-luz digna de cabaré.
E eu bem queria que ela fosse realmente uma puta, como tinha demonstrado no restaurante, abrindo suas pernas e roçando nervosamente em minha canela. Mais uma vez ela relevou as más condições do meu doce e mofado lar. Talvez estivesse precisando de sexo tanto quanto eu e isso era bom para nós dois. Começamos a nos agarrar, e sem romantismo, ela foi logo descendo seu vestido, revelando estar sem soutien e sem calcinha. A noite era, definitivamente, minha.
Por baixo do vestidinho, uns peitos medianos . Não, Al Pacino não teria peitos assim, mas sejamos francos, a essa altura dos acontecimentos pensar no Al Pacino poderia estragar tudo. Então pensei na Loira que dança tango com o Al Pacino, e de fato, Mariana tinha pernas de dançarina de tango e, melhor, volúpia de dançarina de tango. E eu. Que fazer? Eu apalpava como um ceguinho.
E nossa, como ela se movia, lânguida, seus seios bailando tango em minhas mãos, mas, mais embaixo, em meu colo, o encontro de nossas coxas proporcionava um samba que nenhuma mulata da Sapucaí conseguiria dançar. Pelo menos não na avenida.
Eu mestre-sala. Ela, Porta-bandeira. Porta-bandeira, que trocadilho malicioso isso não daria. E agora, olhos fechados, ela já não via o apartamento, as meias sujas, a louça por lavar, a luz neônica que emanava a tela do computador, sequer me via, devia ver Al Pacino, James Bond, quem quer que habitasse seus sonhos molhados, mas eu via tudo, cada contorção, cada suspiro.
Malditos cupins. Decisivos para o fim da minha breve experiência sexual com Mariana. O que eu recebia do meu provedor de internet não fora suficiente para combater a praga que roía o estrado da minha cama. Agora estava eu, nu, ao chão, com meu ferimento no supercílio estancado, e com uma lasca de madeira na perna, observando a lascívia deslizar porta afora com Mariana, enfurecida, ainda se vestindo.
Moça corajosa, é preciso dizer. Sair por aquele bairro, àquela hora amarrando alças em um vestido que, eu bem sabia, não tinha nada por baixo. Não era muito compreensiva com relação aos cupins mas era corajosa. Não fossem os peitos, poderia ser Al Pacino.
quarta-feira, 24 de janeiro de 2007
Encontro
em parceria com a czarina romena.
Traga a carta de vinhos
minha companhia alonga-se na demora
meu relógio e eu, sozinho
os minutos passam e as flores murcham
aquilo corroendo as paredes, eu sei, é o tempo
das paredes ulcerosas brota a impaciência
nada chega.
Traga a carta de vinhos.
Chilenos, argentinos e brasileiros. Só. É um restaurante latino-americano?
Que seja. traga um de rótulo bonito. Um que não tenha rolha.
Não há rótulos bonitos em latinoamérica. Só índios - disse-me o insolente maître.
Então me traga uma puta pra me fazer companhia.
Aqui não. Dois prédios à direita, sim?
Sim, certo. Então uma água, um camembert, uma taça de dignidade?
Servimos apenas estes vinhos. Espera de nós dignidade?
Silvinha chega enfim ao restaurante. Me encontra afundado entre o mâitre e as migalhinhas de pão. Estava conhecendo-a agora. E já não tinha uma boa impressão dela. Além de atrasada, estava feia. Parecia que havia saído de um salão de beleza enquanto ainda penteavam seu cabelo.
Ela amarrou a bolsa na cadeira e se sentou com um ruido abafado. Oi! Desculpa o atraso viu? é que rolaram uns imprevistos e… enfim! cheguei!
Olhei-a com escárnio. Como podia se atrasar tanto pro nosso primeiro encontro? Resolvi ser cruel.
- Hoje a conta é sua, baby.
Ela passou a mão no cabelo, e não respondeu se sim ou se não. Além de tudo devia ser avarenta. O vinho chegou. Era chileno. Tinha nome de santo.
Vamos conversar, pensei. Olhei para o vinho e fiz uma careta. Parecia péssimo. Era suave, ainda por cima.
- Quais os imprevistos que enfrentou?
- Ahn, bem. A… a minha mãe ligou pedindo pra buscar ela, porque… porque ela tinha sido assaltada.
Em outras palavras, ela passou tempo demais no banho e usou o secador pra construir aquele Frankenstein que ela chamava de penteado.
- Foi você quem fez esse penteado?
- Não… estive no salão antes de tudo isso. Gostou? - disse enquanto sorria e alisava a cabeleira loira
- Horrível.
O sorriso esvaiu rapidamente de sua face. O silêncio na mesa contrastava com o tilintar de garfos e derramar de líqüido nos copos das outras mesas. Bebia o vinho calmamente. Não estava tão ruim assim.
Eu ia estourar seu cartão de crédito, ela sabia disso.
Ela começou a parecer indignada, mas não sabia bem o que fazer. Torcia e destorcia o guardanapo no colo, fez que ia falar, não falou. Veio o mâitre: Já sabem o que vão pedir?
- Já sabemos, querida?
- Não, por que você não escolhe? - quis ser gentil. Sua gentileza iria lhe custar uns 500 reais.
- Primeiro, petit gateaux. Um pra cada. Depois, lagosta e paella. De acordo, amor?
O maître olhou meio assustado. Talvez por pedir uma sobremesa de entrada. Mas queria doce e não queria rodeios.
- Sim, Joseval… - assentiu resignada.
O maître saiu feliz.
Ela começou a me olhar com ódio. Era divertido ver a pálpebrazinha de baixo tremelicar. Quando o garçom trouxe os dois bolinhos de chocolate como entrada, ela já estava à beira das lágrimas.
Ela comeu. Pareceu um pouco melhor. Chocolate e mulheres, vá entender.
- Está gostando? Eu estou achando ótimo. Ah, roubaram o que de sua mãe? Ela está bem?
- Poderia ser melhor. Roubaram pouca coisa, só a bolsa. O problema são os documentos mesmo. A propósito, acho que não tenho dinheiro para pagar a conta toda. - tentou revidar.
- Nem eu. Também fui assaltado.
Choque.
- vamos cancelar os pedidos.
- Está louca? Estou morto de fome! Você tem idéia do quanto se atrasou?
- Eu te pago um cachorro quente lá fora! Não. Vou. Lavar. Pratos. Não vou. Ponto.
Ela levantou, foi atrás do mâitre. Pediu desculpas e a conta.
- Desculpe, senhora. Mas é norma da casa não cancelar pedidos de pratos que já foram preparados.
- MAS EU NÃO TENHO DINHEIRO! - gritou, chamando a atenção de todo o restaurante. Ainda por cima era indiscreta. Resolvi deixar o restaurante de fininho.
Passei pela porta giratória e pedi um táxi. Entrei e mandei o motorista acelerar.
Ainda deu pra ver Silvinha correndo atrás atabalhoada, de salto alto, uivando um Filho da Puta!!!!!! assim, com diversas exclamações mesmo. É. Descabelada, avarenta e mal-educada. Desculpe Silvinha, mas eu e você… não era pra ser.
Traga a carta de vinhos
minha companhia alonga-se na demora
meu relógio e eu, sozinho
os minutos passam e as flores murcham
aquilo corroendo as paredes, eu sei, é o tempo
das paredes ulcerosas brota a impaciência
nada chega.
Traga a carta de vinhos.
Chilenos, argentinos e brasileiros. Só. É um restaurante latino-americano?
Que seja. traga um de rótulo bonito. Um que não tenha rolha.
Não há rótulos bonitos em latinoamérica. Só índios - disse-me o insolente maître.
Então me traga uma puta pra me fazer companhia.
Aqui não. Dois prédios à direita, sim?
Sim, certo. Então uma água, um camembert, uma taça de dignidade?
Servimos apenas estes vinhos. Espera de nós dignidade?
Silvinha chega enfim ao restaurante. Me encontra afundado entre o mâitre e as migalhinhas de pão. Estava conhecendo-a agora. E já não tinha uma boa impressão dela. Além de atrasada, estava feia. Parecia que havia saído de um salão de beleza enquanto ainda penteavam seu cabelo.
Ela amarrou a bolsa na cadeira e se sentou com um ruido abafado. Oi! Desculpa o atraso viu? é que rolaram uns imprevistos e… enfim! cheguei!
Olhei-a com escárnio. Como podia se atrasar tanto pro nosso primeiro encontro? Resolvi ser cruel.
- Hoje a conta é sua, baby.
Ela passou a mão no cabelo, e não respondeu se sim ou se não. Além de tudo devia ser avarenta. O vinho chegou. Era chileno. Tinha nome de santo.
Vamos conversar, pensei. Olhei para o vinho e fiz uma careta. Parecia péssimo. Era suave, ainda por cima.
- Quais os imprevistos que enfrentou?
- Ahn, bem. A… a minha mãe ligou pedindo pra buscar ela, porque… porque ela tinha sido assaltada.
Em outras palavras, ela passou tempo demais no banho e usou o secador pra construir aquele Frankenstein que ela chamava de penteado.
- Foi você quem fez esse penteado?
- Não… estive no salão antes de tudo isso. Gostou? - disse enquanto sorria e alisava a cabeleira loira
- Horrível.
O sorriso esvaiu rapidamente de sua face. O silêncio na mesa contrastava com o tilintar de garfos e derramar de líqüido nos copos das outras mesas. Bebia o vinho calmamente. Não estava tão ruim assim.
Eu ia estourar seu cartão de crédito, ela sabia disso.
Ela começou a parecer indignada, mas não sabia bem o que fazer. Torcia e destorcia o guardanapo no colo, fez que ia falar, não falou. Veio o mâitre: Já sabem o que vão pedir?
- Já sabemos, querida?
- Não, por que você não escolhe? - quis ser gentil. Sua gentileza iria lhe custar uns 500 reais.
- Primeiro, petit gateaux. Um pra cada. Depois, lagosta e paella. De acordo, amor?
O maître olhou meio assustado. Talvez por pedir uma sobremesa de entrada. Mas queria doce e não queria rodeios.
- Sim, Joseval… - assentiu resignada.
O maître saiu feliz.
Ela começou a me olhar com ódio. Era divertido ver a pálpebrazinha de baixo tremelicar. Quando o garçom trouxe os dois bolinhos de chocolate como entrada, ela já estava à beira das lágrimas.
Ela comeu. Pareceu um pouco melhor. Chocolate e mulheres, vá entender.
- Está gostando? Eu estou achando ótimo. Ah, roubaram o que de sua mãe? Ela está bem?
- Poderia ser melhor. Roubaram pouca coisa, só a bolsa. O problema são os documentos mesmo. A propósito, acho que não tenho dinheiro para pagar a conta toda. - tentou revidar.
- Nem eu. Também fui assaltado.
Choque.
- vamos cancelar os pedidos.
- Está louca? Estou morto de fome! Você tem idéia do quanto se atrasou?
- Eu te pago um cachorro quente lá fora! Não. Vou. Lavar. Pratos. Não vou. Ponto.
Ela levantou, foi atrás do mâitre. Pediu desculpas e a conta.
- Desculpe, senhora. Mas é norma da casa não cancelar pedidos de pratos que já foram preparados.
- MAS EU NÃO TENHO DINHEIRO! - gritou, chamando a atenção de todo o restaurante. Ainda por cima era indiscreta. Resolvi deixar o restaurante de fininho.
Passei pela porta giratória e pedi um táxi. Entrei e mandei o motorista acelerar.
Ainda deu pra ver Silvinha correndo atrás atabalhoada, de salto alto, uivando um Filho da Puta!!!!!! assim, com diversas exclamações mesmo. É. Descabelada, avarenta e mal-educada. Desculpe Silvinha, mas eu e você… não era pra ser.
terça-feira, 2 de janeiro de 2007
Antediluviano
Solidão contemplativa do pato
Sob o céu pardacento da manhã
Solidão lúgubre das cruzes
Ao longo da rodovia que rasga
Solidão resignada do lavrador,
que sulca o solo raso com a enxada
Solidão viçosa das florzinhas amarelas
Entre os galhos retorcidos e espinhosos
Solidão esmaecida dos prédios abandonados
Esmagados pelas secas intempéries
E ainda para lá,
É tudo Desertão
Sob o céu pardacento da manhã
Solidão lúgubre das cruzes
Ao longo da rodovia que rasga
Solidão resignada do lavrador,
que sulca o solo raso com a enxada
Solidão viçosa das florzinhas amarelas
Entre os galhos retorcidos e espinhosos
Solidão esmaecida dos prédios abandonados
Esmagados pelas secas intempéries
E ainda para lá,
É tudo Desertão
terça-feira, 5 de dezembro de 2006
O Patriarca Resignado
Curioso como os feixes de luz solar tornam as coisas bonitas a depender do seu grau de inclinação. A favelização e os feios prédios comerciais em tom pastel passam despercebidos às quatro da tarde, por exemplo. Neste horário o que se sobressai são o céu tomado por um azul em início de amarelecimento e as folhas das árvores em tom verde bandeira. Mas a cidade não pode parar e poucos percebem este fato. Dizem até que a cidade, como um todo, é pouco arborizada. São os olhos de pequenos comerciantes que de verde conhecem apenas as cédulas de um real, e que enxergam mais o cinza das moedas antigas - aquelas emitidas no longínquo ano de 1994. Afinal, sua memória é curtíssima, e mal conseguem lembrar-se das eleições anteriores -. A ordem é jogar o que é velho fora.
“Interna esse velho no asilo, Maria!”. Augusto ouvia isso da boca do genro todos os dias e já estava ficando acostumado a contragosto. Pedro havia se casado com sua filha e desde então morara na casa de Seu Augusto. Hoje, a casa continua registrada no fórum como de propriedade do velho senhor, mas a posse é, de fato, do pequeno-burguês.
Seu Augusto trabalhara muitos anos de sua vida como pedreiro, e a casa onde moram foi construída por ele há muitos anos. Sempre foi um homem econômico, e juntando parte de seu salário mensal, pôde construir seu lar e desenvolver uma pequena loja de materiais de construção. O tempo passou, a loja cresceu, mas Seu Augusto - que nunca fôra bruto -, não embruteceu em meio aos sacos de cimento e às latas de tinta. Continuara a dar valor a um bom baba no fim de semana, ao canto dos já escassos pássaros canoros da manhã, até mesmo à vegetação retorcida e feia da caatinga de onde saíra ainda pequeno. Casou-se com uma mulher que não amava, teve com ela cinco filhos e todo o desgosto que poderia agüentar. Ali sim é que embruteceu e amargurou-se. Mas não durou muito, e Augusto pôde voltar a apreciar o doce das coisas. Margarida morreu no parto de Maria, que acabaria se tornando o segundo desgosto de Augusto.
Respeitou o luto pela morte de sua esposa. “Homem de honra não casa com duas mulheres”, dizia ele. E foi assim. Criou seus filhos através de árduo trabalho e severa abnegação. Naquela época, Feira de Santana ainda era uma cidade pequena e as crianças brincavam de gude nas ruas do centro da cidade, que possuía um forte odor de couro, fruto da grande feira popular do centro, e dos currais do antigo Campo do Gado. Moravam na Brasília, e de lá seus filhos saíam para estudar no Gastão Guimarães, todos os dias.
Maria era a mais nova, e sentia-se culpada pela morte da mãe. Permitia-se a pensar que possuía algo de maligno no corpo, e que isso havia matado sua mãe de alguma forma. Carregou esta culpa em si até o dia em que conheceu Pedro, um rapazito cheio de lábia, que só pensava em levar a pobre moça para a cama mais próxima. Usou-se de uma conversa fiada para levá-la a pensar que não apresentava nenhum mal mortal em seu corpo, apenas o poder de apertar seu coração. A menina, ruborizada, ria, enquanto tomava sorvete com o malandro sem navalha.
Pode-se dizer que ali havia começado o segundo martírio de Augusto. Dissimulado, Pedro conseguiu a confiança do pai de sua namorada, e conseguiu que fosse tratado como um membro antigo da família. Sentava-se à mesa e tinha tanta voz na casa quanto o patriarca. Era de se esperar que desenvolvesse tino comercial, e foi isto mesmo que aconteceu. Sem precisar passar por qualquer curso universitário ou qualquer cargo rasteiro, ele arranjou uma posição de destaque na loja de seu sogro. Assumiu o balcão, depois, com o crescimento da loja, virou gerente. Cuidou-se para não entrar em atritos com Augusto, em âmbito familiar e profissional. Sempre teve ambição de controlar aquele pequenino império comercial, que atendia a um bairro em crescimento constante, e conseguiu, quando Augusto resolveu “abrir espaço para os mais jovens”, como gostava de dizer. O aposentado mal-sabia que além da aposentadoria, assinara também a “carta de humilhação”. Pedro esperou algum tempo para consolidar-se como verdadeiro dono da loja e livrar-se de toda a influência que seu velho sogro exercia perante os funcionários. Quando se sentiu em sua plenitude, passou a incutir Maria da inutilidade de seu pai. Usava-se do argumento de que estava caducando, falando até com mendigos – o que de fato fazia -. “Como é possível ficar falando com esses vagabundos como se fossem pessoas normais? Eles tem de aprender a trabalhar, o trabalho dignifica o homem!”.
Passaram a brigar e a primeira cena que deles foi descrita no texto, passou a repetir-se constantemente. Numa discussão durante o almoço, deu-se a gota d’água. Pedro reclamava de sentir um calor insuportável na cidade, e atribuía a causa disto à falta de árvores na cidade. “Veja bem, os bairros daqui, principalmente os centrais, possuem bastante árvores. Nem todas sombreiam muito, mas elas existem. Faltam plantas na caatinga, isso sim”. Pedro, percebendo que iria perder a discussão se ela realmente começasse, agiu de maneira arrogante, fazendo um drama barato, quase rocambolesco, e acabou por dizer, com lágrimas nos olhos, que deveriam internar mesmo o sogro. Abraçaram-se ele e Maria, enquanto um resignado Augusto dirigia-se para seu quarto. Subiu na cama do pequeno quarto, apoiou-se no guarda-roupas, e pegou sua mala. Arrumou rapidamente as poucas roupas de qualquer jeito dentro da mala, pensando que não deveria ser de todo mal ir para um asilo, mas que fosse o Lar do Irmão Velho, não poderia ser outro. Ouvira falar bem do instituto quando fôra consultar-se no Hospital Dom Pedro II. Um leve problema de coluna, lhe disseram. Mas, não, pensou numa idéia melhor.
Então, dirigiu-se para o banheiro, a fim de barbear-se. Fez a barba e deixou seu bigode vasto e acinzentado, cultivado por anos, para parecer imponente. Depois de lavar o rosto, apareceu na sala, vestido com seu terno de domingo e com sua antiga mala suspensa pela mão direita. “Irei fazer uma viagem para minha terra natal. Juntei parte de minha aposentadoria e devo ficar um mês por lá com meus parentes. Até mais”. E saiu, depois de um abraço rápido na filha e sem falar com o genro. Mentira para eles, afinal, não lhes devia nada senão o desprezo. Na verdade, o que iria fazer era simples. Iria conviver com seus semelhantes, os sem-teto. Então, partiu para o local onde poderia encontrá-los: a praça da Kalilândia.
Andou um pouco, e logo chegou. Assim que avistou os mendigos, acenou-lhes, muitos ali já haviam conversado com ele, e o conheciam de longa data. Para a surpresa deles, Augusto viera para ficar, e mais: dividiria parte das roupas e do dinheiro com os que estavam ali. Logo ganhou a confiança dos que não conhecia e também seu pedaço de papelão para dormir.
Só não contavam com a denúncia de uma moradora senil, que mal sabia se rezava o terço, ou olhava para a rua. Anoitecia no momento da partilha do dinheiro, e a velhota, que estava com seu terço, rezando-o na hora certa, deixou-se olhar para o coreto, achando que era um assalto. Então, como boa cidadã, ligou para a polícia. Então o chefe da delegacia conseguiu a oportunidade que queria. Era um linha-dura, que pretendia acabar com o máximo de sujeira social que via por meio da violência. Assim, preparou uma emboscada no meio da noite, capturando silenciosamente todos os mendigos que estavam no coreto. Foram postos no camburão e levados para longe, para a sombria e decadente Colônia Lopes Rodrigues. Amarrados e amordaçados, apanharam por horas e tiveram seus pertences roubados. Foram deixados nus e levaram choques elétricos. Que não seria aquele lugar senão um matadouro ditatorial? Para contar a história, sobraram apenas os policiais, que, claro, nunca haviam visto qualquer dos mendigos mortos.
“Interna esse velho no asilo, Maria!”. Augusto ouvia isso da boca do genro todos os dias e já estava ficando acostumado a contragosto. Pedro havia se casado com sua filha e desde então morara na casa de Seu Augusto. Hoje, a casa continua registrada no fórum como de propriedade do velho senhor, mas a posse é, de fato, do pequeno-burguês.
Seu Augusto trabalhara muitos anos de sua vida como pedreiro, e a casa onde moram foi construída por ele há muitos anos. Sempre foi um homem econômico, e juntando parte de seu salário mensal, pôde construir seu lar e desenvolver uma pequena loja de materiais de construção. O tempo passou, a loja cresceu, mas Seu Augusto - que nunca fôra bruto -, não embruteceu em meio aos sacos de cimento e às latas de tinta. Continuara a dar valor a um bom baba no fim de semana, ao canto dos já escassos pássaros canoros da manhã, até mesmo à vegetação retorcida e feia da caatinga de onde saíra ainda pequeno. Casou-se com uma mulher que não amava, teve com ela cinco filhos e todo o desgosto que poderia agüentar. Ali sim é que embruteceu e amargurou-se. Mas não durou muito, e Augusto pôde voltar a apreciar o doce das coisas. Margarida morreu no parto de Maria, que acabaria se tornando o segundo desgosto de Augusto.
Respeitou o luto pela morte de sua esposa. “Homem de honra não casa com duas mulheres”, dizia ele. E foi assim. Criou seus filhos através de árduo trabalho e severa abnegação. Naquela época, Feira de Santana ainda era uma cidade pequena e as crianças brincavam de gude nas ruas do centro da cidade, que possuía um forte odor de couro, fruto da grande feira popular do centro, e dos currais do antigo Campo do Gado. Moravam na Brasília, e de lá seus filhos saíam para estudar no Gastão Guimarães, todos os dias.
Maria era a mais nova, e sentia-se culpada pela morte da mãe. Permitia-se a pensar que possuía algo de maligno no corpo, e que isso havia matado sua mãe de alguma forma. Carregou esta culpa em si até o dia em que conheceu Pedro, um rapazito cheio de lábia, que só pensava em levar a pobre moça para a cama mais próxima. Usou-se de uma conversa fiada para levá-la a pensar que não apresentava nenhum mal mortal em seu corpo, apenas o poder de apertar seu coração. A menina, ruborizada, ria, enquanto tomava sorvete com o malandro sem navalha.
Pode-se dizer que ali havia começado o segundo martírio de Augusto. Dissimulado, Pedro conseguiu a confiança do pai de sua namorada, e conseguiu que fosse tratado como um membro antigo da família. Sentava-se à mesa e tinha tanta voz na casa quanto o patriarca. Era de se esperar que desenvolvesse tino comercial, e foi isto mesmo que aconteceu. Sem precisar passar por qualquer curso universitário ou qualquer cargo rasteiro, ele arranjou uma posição de destaque na loja de seu sogro. Assumiu o balcão, depois, com o crescimento da loja, virou gerente. Cuidou-se para não entrar em atritos com Augusto, em âmbito familiar e profissional. Sempre teve ambição de controlar aquele pequenino império comercial, que atendia a um bairro em crescimento constante, e conseguiu, quando Augusto resolveu “abrir espaço para os mais jovens”, como gostava de dizer. O aposentado mal-sabia que além da aposentadoria, assinara também a “carta de humilhação”. Pedro esperou algum tempo para consolidar-se como verdadeiro dono da loja e livrar-se de toda a influência que seu velho sogro exercia perante os funcionários. Quando se sentiu em sua plenitude, passou a incutir Maria da inutilidade de seu pai. Usava-se do argumento de que estava caducando, falando até com mendigos – o que de fato fazia -. “Como é possível ficar falando com esses vagabundos como se fossem pessoas normais? Eles tem de aprender a trabalhar, o trabalho dignifica o homem!”.
Passaram a brigar e a primeira cena que deles foi descrita no texto, passou a repetir-se constantemente. Numa discussão durante o almoço, deu-se a gota d’água. Pedro reclamava de sentir um calor insuportável na cidade, e atribuía a causa disto à falta de árvores na cidade. “Veja bem, os bairros daqui, principalmente os centrais, possuem bastante árvores. Nem todas sombreiam muito, mas elas existem. Faltam plantas na caatinga, isso sim”. Pedro, percebendo que iria perder a discussão se ela realmente começasse, agiu de maneira arrogante, fazendo um drama barato, quase rocambolesco, e acabou por dizer, com lágrimas nos olhos, que deveriam internar mesmo o sogro. Abraçaram-se ele e Maria, enquanto um resignado Augusto dirigia-se para seu quarto. Subiu na cama do pequeno quarto, apoiou-se no guarda-roupas, e pegou sua mala. Arrumou rapidamente as poucas roupas de qualquer jeito dentro da mala, pensando que não deveria ser de todo mal ir para um asilo, mas que fosse o Lar do Irmão Velho, não poderia ser outro. Ouvira falar bem do instituto quando fôra consultar-se no Hospital Dom Pedro II. Um leve problema de coluna, lhe disseram. Mas, não, pensou numa idéia melhor.
Então, dirigiu-se para o banheiro, a fim de barbear-se. Fez a barba e deixou seu bigode vasto e acinzentado, cultivado por anos, para parecer imponente. Depois de lavar o rosto, apareceu na sala, vestido com seu terno de domingo e com sua antiga mala suspensa pela mão direita. “Irei fazer uma viagem para minha terra natal. Juntei parte de minha aposentadoria e devo ficar um mês por lá com meus parentes. Até mais”. E saiu, depois de um abraço rápido na filha e sem falar com o genro. Mentira para eles, afinal, não lhes devia nada senão o desprezo. Na verdade, o que iria fazer era simples. Iria conviver com seus semelhantes, os sem-teto. Então, partiu para o local onde poderia encontrá-los: a praça da Kalilândia.
Andou um pouco, e logo chegou. Assim que avistou os mendigos, acenou-lhes, muitos ali já haviam conversado com ele, e o conheciam de longa data. Para a surpresa deles, Augusto viera para ficar, e mais: dividiria parte das roupas e do dinheiro com os que estavam ali. Logo ganhou a confiança dos que não conhecia e também seu pedaço de papelão para dormir.
Só não contavam com a denúncia de uma moradora senil, que mal sabia se rezava o terço, ou olhava para a rua. Anoitecia no momento da partilha do dinheiro, e a velhota, que estava com seu terço, rezando-o na hora certa, deixou-se olhar para o coreto, achando que era um assalto. Então, como boa cidadã, ligou para a polícia. Então o chefe da delegacia conseguiu a oportunidade que queria. Era um linha-dura, que pretendia acabar com o máximo de sujeira social que via por meio da violência. Assim, preparou uma emboscada no meio da noite, capturando silenciosamente todos os mendigos que estavam no coreto. Foram postos no camburão e levados para longe, para a sombria e decadente Colônia Lopes Rodrigues. Amarrados e amordaçados, apanharam por horas e tiveram seus pertences roubados. Foram deixados nus e levaram choques elétricos. Que não seria aquele lugar senão um matadouro ditatorial? Para contar a história, sobraram apenas os policiais, que, claro, nunca haviam visto qualquer dos mendigos mortos.
sábado, 25 de novembro de 2006
Fugidio
Tua mente é arranjo tropicalista
Que o maestro Duprat não pensou em fazer.
Pensamentos em círculos imperfeitos
Devoram a você e ao pobre giramundo.
Um lapso de consciência autocrítica
Suscita sua dúvida mais uma vez;
Minha Hora de inventar entidades:
Atribuir culpados e dar nome aos bois
Decapitar os góis
E também os judeus.
Aproveitar a covardia reacionária,
Fazer brotar atentados da fraqueza.
Preparo meu ato de vandalismo:
Quero um cigarro.
Tragar a fumaça e com o isqueiro
Atear fogo ao mais gélido pesar,
Pôr abaixo o castelo das incertezas
E partir de uma vez do cruel Sonhar.
Que o maestro Duprat não pensou em fazer.
Pensamentos em círculos imperfeitos
Devoram a você e ao pobre giramundo.
Um lapso de consciência autocrítica
Suscita sua dúvida mais uma vez;
Minha Hora de inventar entidades:
Atribuir culpados e dar nome aos bois
Decapitar os góis
E também os judeus.
Aproveitar a covardia reacionária,
Fazer brotar atentados da fraqueza.
Preparo meu ato de vandalismo:
Quero um cigarro.
Tragar a fumaça e com o isqueiro
Atear fogo ao mais gélido pesar,
Pôr abaixo o castelo das incertezas
E partir de uma vez do cruel Sonhar.
domingo, 19 de novembro de 2006
Domingo legal
Enquanto o mundo pega fogo
O povo está preocupado
Com quem dança melhor sobre o gelo,
Cultivando a nova tradição de neve
Na televisão do Brasil.
Sílvio Santos vem aí
E sua trupe de noivas desesperadas
Sorrindo à frente do cenário róseo
De paixão compactada de audiência, -
Lágrimas de moças escorrem nas faces,
Saliva viscosa verte pelo queixo dos namorados
As unhas desaparecem nas tardes
Dos clássicos cariocas, nervosos e cheios de charme. -
único alento no suplício dominical.
Cerveja, churrasco e cavaquinho afinado,
De olho na nova propaganda etílica do Zeca,
A nova diversão do ano
E a mesma loura gelada.
São os dias que não podem durar para sempre.
E esqueçam também a segunda-feira, por favor.
O povo está preocupado
Com quem dança melhor sobre o gelo,
Cultivando a nova tradição de neve
Na televisão do Brasil.
Sílvio Santos vem aí
E sua trupe de noivas desesperadas
Sorrindo à frente do cenário róseo
De paixão compactada de audiência, -
Lágrimas de moças escorrem nas faces,
Saliva viscosa verte pelo queixo dos namorados
As unhas desaparecem nas tardes
Dos clássicos cariocas, nervosos e cheios de charme. -
único alento no suplício dominical.
Cerveja, churrasco e cavaquinho afinado,
De olho na nova propaganda etílica do Zeca,
A nova diversão do ano
E a mesma loura gelada.
São os dias que não podem durar para sempre.
E esqueçam também a segunda-feira, por favor.
domingo, 12 de novembro de 2006
Nuvem de primavera
A seriedade cinzenta dos estudantes
Duas semanas antes do vestibular
Ocupa as horas de austero marchar
E mancha as flores exuberantes
Eu; quero meu sol de primavera,
O brilho amarelado no arvoredo
As tardes de passeios sem medo,
Casais empertigados nos bancos de outrora
Rojões para os conservadores!
A transgressão juvenil –
O gato engoliu,
Atulhou-se em implantados amores
Carro, novela, dinheiro e umbigo.
Duas semanas antes do vestibular
Ocupa as horas de austero marchar
E mancha as flores exuberantes
Eu; quero meu sol de primavera,
O brilho amarelado no arvoredo
As tardes de passeios sem medo,
Casais empertigados nos bancos de outrora
Rojões para os conservadores!
A transgressão juvenil –
O gato engoliu,
Atulhou-se em implantados amores
Carro, novela, dinheiro e umbigo.
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